Ela

Abriu o livro capa cor verde limão e saboreou mais um gole de café.
Sabia que ficar atordoada, nada resolveria e tudo complicaria.
Era uma tarde traiçoeira de domingo, daquelas onde a preguiça chega, mas não avisa que a segunda logo vem junto.
O céu limpo pela última chuva, continha os traços secretos de fim do dia, belos, daqueles que nem toda alma consegue captar com clareza.
Tinha os lábios vermelhos e o coração em prantos. Escapar para um bonito e requintado café para ler, refletir, observar, fazia dela uma fugitiva sagaz e sedutora. O sorriso lhe escapava toda vez que um charmoso homem tentava alguma aproximação. Sim, uma bonita e misteriosa mulher, sozinha num café, desperta todos os sentidos mais estranhos dos homens à caça.
Achava graça, mas não queria nada daquilo.
Sua fuga tinha mesmo um único e real objetivo: não pensar. Era, para ela, o mais rico desejo de saborear cada gole daquele livro encantador e ler cada gota do sublime café, assim como o último conforto existente e possível.
Não, nada demais, nenhum drama em especial. Era mesmo o momento de aprender a não pensar. Sentir, fluir, seguir, nada mais.
Essa era a maior e mais revolucionária nova forma de viver que ela estava aprendendo até então. Tudo isso era novo, assustador, mas ao mesmo tempo incrível e libertador!
E como reagir ao medo que vem do que é novo? Como admitir que do jeito antigo (aquele bem acomodado, feito roupa velha e gostosa que a gente tem dó de dar) era mais fácil e acolhedor? O que fazer com isso? Não, voltar atrás era a única opção que não mais existia.
Melhor mesmo era o batom vermelho arranhando a alma, com gosto de café amargo e graça doce dos olhares que se achavam sedutores, mas que eram motivo de riso escancarado e desafiador.
Quando nada se pode fazer, melhor mesmo aceitar com estilo e aprender com ousadia. É isso e é só.