Eduardo Cunha: uma raposa escaldada

Não há dúvidas. Eduardo Cunha é uma raposa astuta. Chamado de “ladrão”, “golpista”, “canalha” e “tirano”, entre outros adjetivos, durante a votação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o presidente da Câmara dos Deputados desenhou uma trajetória de proximidade com o poder político que invejaria a qualquer lobista ou financista – classifico a trajetória dele de ‘aproximação com o poder político’ de modo proposital, porque, ao meu entender, política é outra coisa, muito diferente do balcão de negócios em que Cunha se apoiou.
Vejamos a história. Cunha filiou-se ao PRN de Fernando Collor em 1989 e atuou no comitê financeiro da campanha. Com a vitória do alagoano, Cunha foi alçado para o comando da Telerj – estatal do setor de telecomunicações no Rio de janeiro. Seu período à frente da empresa foi marcado por malfeitos graves, como contratação fraudulenta de servidores sem concurso, vícios contratuais em licitações e lobby junto a fornecedores estratégicos.
Sete anos depois de seu ingresso na “política”, em 1996, Cunha apareceu numa lista com outros 41 indiciados num processo sobre o esquema de corrupção capitaneado pelo já finado Paulo Cesar Farias, vulgo PC Farias. Cunha se salvou graças a um habeas corpus concedido pelo Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro.
No ano 2000, Cunha aparecia envolvido num outro escândalo – na Companhia Estadual de Habitação do Rio (Cehab). Foram pouco mais de seis meses, interrompidos após a constatação de denúncias de irregularidades em contratos sem licitação e favorecimento de empresas fantasmas. O prazo de condenação prescreveu e os arquivos, mais uma vez, salvaram a pele da raposa. Não bastasse isso, Cunha foi acusado de falsificar assinaturas e documentos para ser eximido de responsabilidade em irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro na Cehab. Sobre essa segunda acusação, o STF absolveu Cunha em 2014 por falta de provas para sustentar a condenação do parlamentar.
Mais recentemente, a Lava Jato trouxe de novo à cena a vocação criminosa do nobre deputado. Das malas de dinheiro em uma casa na Barra da Tijuca, passando pelas contas no exterior em que ele se diz “usufrutuário” e, nesta semana, a denúncia de R$ 52 milhões recebidos em propinas por desvios do fundo de investimentos do FGTS. Esta última acusação confirmada em depoimento por Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa Econômica e afilhado político de Cunha.
É a esta figura que o Brasil reverenciou ao aceitar um altamente questionável processo de impedimento da presidente Dilma. É a esta figura que a Câmara dos Deputados se curva, mantendo-se sob sua subserviência e aceitando passivamente suas manobras regimentais e traquitanas negociais.
Num país sério, todas as forças políticas já estariam unidas para solapá-lo da função. No entanto, por se servir da conveniência com maestria, Cunha se mantém no cargo a despeito da extensa ficha de malfeitos que enverga.
Uma pena para a verdadeira política.

 

 

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano