Dilma, o PT e os sindicatos: virando a página

No dia 16 de março, a convite do amigo jornalista Elias Aredes Junior, estive no Sindicato dos Petroleiros, participando de um seminário de comunicação promovido pelo Sinergia (Sindicatos dos Eletricitários). Falamos lá sobre o relacionamento da imprensa com o movimento sindical. Estava na mesa comigo um até então desconhecido meu, e hoje novo amigo: o jornalista Otavio Antunes, ligado historicamente aos mandatos e projetos políticos e sociais do PT e da Fundação Perseu Abramo. 
16 de março foi o dia em que vazaram os áudios de Lula e Dilma falando sobre ministério e outras conversas telefônicas. Era o início do fim.
Na minha fala, que foi muito entremeada por reações de ira e temor diante das notícias sobre a divulgação dos áudios presidenciais, ressaltei que a partidarização dos sindicatos – assim como ocorreu no movimento estudantil – é um fator de risco para o bom relacionamento das entidades de representação de classe com a imprensa. Afinal, a estampa ideológica pode afastar o interesse midiático por demandas historicamente relevantes da classe trabalhadora.
Lembrei que, com Lula e Dilma à frente do Palácio do Planalto, as centrais sindicais (CUT e CTB, notadamente), que foram motores da mobilização social que gerou a esquerda trabalhista e popular do Brasil, viraram bunkers partidários, ou seja, tentáculos da articulação do partido. Uma inversão de eixo perigosa para os coletivos da classe trabalhadora, pois minava por dentro a unidade das lutas focais das categorias profissionais. Ressaltei que tanto o PT quanto as lideranças, hora ou outra, deveriam partir para uma autocrítica dessa realidade.
Cinco meses depois do 16 de março, temos diante dos olhos a reta final de um processo de impedimento da presidente eleita. Processo politicamente articulado e justificado, ainda que com porosas e duvidosas bases jurídicas. Nesse ponto do enredo, vemos, de um lado, um PT isolado, abandonado depois de anos abastecendo o oportunismo de siglas fisiológicas, já rouco pelos gritos de “É golpe!”, politicamente nas cordas e moralmente respirando por aparelhos. De outro lado, centrais sindicais sem poder de mobilização e atônitas por se verem perdidas a partir da confirmação do impeachment de Dilma.
O arremate sobre o que penso desse capítulo prestes a ser encerrado está no fim da coluna do sempre brilhante mestre Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo da última terça-feira: “A presidente afastada vive seus últimos dias de poder na redoma do Alvorada, transformado em magnífico calabouço. Lá espera o automóvel que a conduzirá ao aeroporto. Poderia ter sido diferente, se ela e o PT tivessem entendido que estar no poder não significa poder fazer o que se queira. Algum dia essa ficha haverá de cair”. Tomara que caia: para Dilma, para o PT e para os sindicatos que provocaram uma perniciosa guinada no campo da representação dos trabalhadores.

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano