Daniela Vitor

Eram dias estranhos, surrados pela espera e, por vezes, evasivos por inteiros. Ainda assim era necessário crer que a qualquer momento, assim sem perceber, algo mudaria para sempre sua vida, seu destino. Afinal, não estava de braços cruzados esperando por isso, nunca esteve. Busca tudo, todo tempo. Questiona, estuda, pede ajuda, assim sem vergonha alguma. Lê, escreve muito, pensa demais, sente tudo. Transborda amor. E nada acontece. Um nada totalmente perturbador e pouco compreensível aos olhos carnais. Veja, há toda uma poesia intrínseca em crer no invisível, no milagre em que não vemos, eu sei, mas a ansiedade atordoa as almas mais intensas também.

E uma pergunta coça a garganta de forma toda injusta e descompassada: o que fazer nesse tempo oco que sobrou enquanto o tal milagre não acontece? É um momento tão repleto de nada, que chega a fazer eco na alma. Posso dizer que cabem muitas fases, entretanto, dentro desse oco. Não que seja uma regra, mas pode ser que aconteça dessa forma: primeiro, felicidade pelo nada; depois, incômodo; na sequência, histeria, raiva; depois, uma tristeza que come os sentidos; segue então uma calmaria misturada com serenidade; a aceitação aparece; a alegria por somente ser toma conta e, acreditem, a partir daí acontece a real entrega. E é justamente nesse momento de entrega, ao fluir do que tiver que ser, por cansaço, aceitação ou seja lá o que for, é que acontece a grande dádiva da criatividade. Muitas ideias maravilhosas, alta disposição e energia, vontade sem igual. E, mesmo assim, nada se realiza.  O desânimo também vem para essa festa mal organizada que se tornou a vida. E então, como resposta a tantos questionamentos, um anjo sopra o segredo a respeito do que falta:disciplina. Essa ideia parece tão irritante, exaustiva, chata. Acontece que não se trata de uma ideia, mas sim de um hábito a ser degustado e incorporado com delicadeza à vida, assim como quem acrescenta as claras em neve num bolo e mexe com cuidado, entende?

O primeiro movimento é um choque misturado com tédio. Na sequência, a disciplina é vista como a chave para abrir a cela da prisão maldita onde você se encontra. Então você cede a encontrar-se com ela, às escuras, sem saber o que realmente está fazendo, mas aceita, sabe que entender-se com ela significa ser, finalmente, livre de si mesmo. E começa a desenhar a logística de tudo a ser realizado, como, quando e onde. A ordem é fazer o que tem de ser feito.

A organização começa dentro de você e extrapola, se esparrama por todo o resto, de forma despretensiosa e silenciosa. Um dia após o outro. Além da ação, acredito que crer sejafundamental. Quando menos se espera, a procrastinação é transmutada em liberdade, da mais simples, complexa e divina! O sorriso é inevitável e a sensação doce de vitória, particular, aguça os sentidos. A paz preenche os espaços que necessitam de acolhimento e você percebe a bênção: uma nova versão de você mesma, totalmente à sua disposição. Faça bom proveito, faça uma boa vida!
É isso e é só.

escritora, graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), pós-graduada pela Anhanguera Educacional e mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Jornalismo (LabJor) Instituto de Estudos das Linguagem (IEL)  da Unicamp