Confusão é vida

Há que se embaralhar mesmo as ideias, caso se queira um fiapo de sanidade original. Era tarde, frio em pleno dezembro, como jamais havia se visto. As cobertas macias e cheirosas tentam niná-la da maneira mais terna que se possa imaginar. Entretanto, as listas em sua cabeça são intermináveis e insistentes. Os pensamentos têm vida própria. E só sossegam quando tomam a forma de letras e são, desesperadamente, lançados numa folha branca, assim com pressa e como que por necessidade.
Eram tantos os assuntos em destaque, todos com prioridade zero e clamando por atenção, que esqueceu por algum tempo das vitórias, tão merecidas e grandiosas. Havia tanto tempo que ninguém tinha coragem de olhá-la nos olhos e ter vontade de ler o que ia dentro dela, que nem acreditava mais que isso pudesse acontecer.  Talvez nunca tivesse acreditado que isso seria possível. Normalmente, acontecia o oposto. Escorpianos, afinal, é quem são detetives de almas por natureza.
Escondia, até então, toda grandiosidade de ser que cabia dentro dela e que transbordava como doce quente e tentador. Como por sobrevivência, aprendeu a ser indecifrável, cautelosamente misteriosa em sua simplicidade de garota sonhadora e de mulher, naturalmente sedutora. Esse era, enfim, seu maior e mais meticuloso escudo. A proteção mais silenciosa, sutil e despercebida do não dito.
Numa fase da vida onde tudo parecia ruir, quando na realidade estava apenas sendo refeito, ser intensamente descoberta não era assim tão confortável, muito menos seguro, mas era bonito. Acontece que o receio deu lugar à curiosidade, característica nata dela. A alma de artista, que sonha em sorrir no palco todos os dias, era seu segredo mais bem guardado de menina. E agora, nem isso mais estava a salvo. Culpa dessa transparência indecente estampada sempre em suas expressões faciais. Impossível disfarçar, segurar ou enganar. Ela não sabe e não quer aprender a respeito. O que ela é, automaticamente, pisca em neon em cada sobrancelha levantada, canto de boca que sorri pela metade, olhos arregalados em espanto, ou lágrima que cai. Isso é o que ela é, simples assim.
Ser indecifrável dava sustentabilidade a uma elegante fuga. Era mais fácil ser comum, normal, do que expor toda glória contida num coração que é pura intuição e emoção.  Mais fácil e mais seguro também. Depois de tantos tombos, aprendeu, erroneamente, a vestir uma máscara de que não era tão grande assim, tão bonita assim, tão inteligente assim, tão capaz assim. E, de repente, como que por fatalidade, é desnudada pétala a pétala. E a forma como acontece é tão carinhosamente doce, que o escudo se esvai, a máscara se dissolve. É preciso ter muita coragem para assumir sua Luz, num mundo onde as sombras ganham as manchetes todos os dias. Aliás, uma coragem insana, incerta e bastante peculiar. Quem sempre teve um chão para pisar, mesmo que em brasa, sente certa vertigem quando descobre que já está voando. Certezas, velhas companheiras de jornada; chão concreto, ainda que áspero; tudo virou pó. E o vento levou sorrindo, como que por malandragem de quem apresenta um novo destino às pressas.
Confiar que o melhor rumo acontecerá em pleno voo é privilégio apenas dos que já caminharam muito pelas mais diversas e controversas vidas. E merecimento também. Não enxergar o que todos veem é, de fato, a maior bênção da vida. Não ser considerada como normal é o maior elogio; não ser compreendida é a maior virtude, ainda que machuque de início.  Ser solitária é inevitável, ainda que pareça aterrorizante. Quanto mais solitário se é em si mesmo, menos sozinho se pode ser.  Ser quem você é, por mérito e por justiça, é a grande ofensa a quem não se acompanha, não se conhece. Viver com autenticidade é invejável, e talvez o que de mais cobiçado possa existir. Ser decifrada é, enfim, um alívio, um susto e uma grande alegria. Viver é um ultraje...

 

Daniela Vitor, escritora, mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Jornalismo (LabJor)  da Unicamp