Comportamento generalizado

Cara leitora, caro leitor, o título desse artigo faz menção a uma composição de Gonzaguinha intitulada “Comportamento geral”. Seus versos dizem “Você deve aprender a baixar a cabeça / E dizer sempre: “Muito obrigado” / São palavras que ainda te deixam dizer / Por ser homem bem disciplinado / Deve pois só fazer pelo bem da Nação / Tudo aquilo que for ordenado / Pra ganhar um Fuscão no juízo final / E diploma de bem comportado.”  Trata-se, por isso, de um comportamento generalizado. E para que as grandes massas tenham esse tipo de comportamento padrão, a técnica de dominação através de certos fascínios – a política do “pão e circo” – tem sido uma constante na história da humanidade. Quase sempre preferimos escolher algo que nos domestica que procurar pensar por nós mesmos. A religião, quando institucionalizada e servida como domesticadora, é um das questões mais evidentes em nossa época. Mas não é só ela. Novos meios de comunicação assumiram a liderança nesse aspecto domesticador. Hoje em dia, estão em voga também os “blogueiros”, os “youtubers”, e tantos outros fenômenos midiáticos que, tão rápido como se tornam famosos, desaparecem na mesma velocidade. O mundo tornou-se complexo demais para termos, sozinhos, por nós mesmos, a capacidade de compreender a realidade. Formamo-nos, ou seja, tomamos forma, não para nós mesmos, mas para o mercado, para a família, para quem quer que seja. Precisaríamos partir de bons livros, de bons pensadores. Mas os dias da valorização do livro estão acabados. Livros e conteúdo já não têm mais papel predominante.
Fazem modernos os versos do poeta Affonso Romano de Sant´Anna: “Erguer a cabeça acima do rebanho é um risco que alguns insolentes correm. Mais fácil e costumeiro seria olhar para as gramíneas como a habitudinária manada. Mas alguns erguem a cabeça olham em torno e percebem de onde vem o lobo. O rebanho depende de um olhar” (Sísifo desce a montanha). Algo novo precisa ser tentado, provado, mesmo se não alcançado. Precisamos, então, de um espírito sedento pelo conhecimento que nos fará libertos da realidade que se vê, mas que não é, ou não deveria ser. Para Nietzsche, “um niilista é aquele que crê que o mundo que é não deveria ser. E que o mundo que deveria ser não existe.”
“Fomos influenciados sem ter em nós a força para uma ação contrária, sem nem mesmo perceber que somos influenciados” (Nietzsche)