Brasil: sinônimo de desigualdade

Nos últimos dias o Brasil foi informado dos mais recentes dados sobre distribuição de renda no país. O estudo intitulado Síntese dos Indicadores Sociais, promovido pelo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE,relativo ao ano de 2018, revelou que um quarto da população brasileira, ou 52,5 milhões de pessoas, em números absolutos, ainda vivia com menos de R$ 420 per capita por mês. O índice caiu de 26,5%, em 2017, para 25,3% em 2018, porém, o percentual está longe do alcançado em 2014, o melhor ano da série, que registrou 22,8%. Se formos levar em conta a pobreza extrema, os dados ainda permanecem alarmantes:  em 2018, o país tinha 13,5 milhões pessoas com renda mensal per capita inferior a R$ 145, ou U$S 1,9 por dia, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza. Esse número é equivalente à população de Bolívia, Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Embora o percentual tenha ficado estável em relação a 2017, subiu de 5,8%, em 2012, para 6,5% em 2018, um recorde em sete anos. Temos pelo menos seis em cada 100 brasileiros com renda inferior a R$ 145 por mês. Não há outro nome para isso que não seja injustiça social.
Enquanto a base da pirâmide social se vira para simplesmente subsistir, o topo da sociedade brasileira vai muito bem, obrigado. De acordo com os dados do mesmo IBGE, uma minoria de 2,7% de famílias brasileiras detêm nada menos do que um quinto de toda a massa de renda gerada no Brasil. Ou seja, 25% de toda a riqueza gerada no país estão nas mãos de apenas 2,7% da população. Mais escandaloso: cinco bilionários brasileiros concentram patrimônio equivalente à renda da metade mais pobre da população do Brasil, de acordo com levantamento da organização não-governamental britânica Oxfam. No sistema financeiro, é só alegria. O lucro líquido registrado pelos bancos ao fim de 2018, de R$ 98,5 bilhões, foi o maior da história, em termos nominais. O montante corresponde a um aumento de 17,40% em relação ao verificado em 2017.
Engana-se quem acredita que esse fenômeno da desigualdade é algo recente no Brasil. Nossa pátria nasceu desigual. Fomos colonizados a partir de um sistema que deu muita terra para poucas famílias e trabalho forçado para os negros e índios. Fomos a última nação do globo a abolir a escravidão e, quando o fizemos, jogamos nas favelas e cortiços um enorme contingente populacional, sem qualquer amparo ou política de promoção social. Transformamos nossas cidades em formigueiros humanos, sem o mínimo de planejamento urbano ou estrutura de suporte ao desenvolvimento humano e comunitário. Fizemos do serviço público uma casta social privilegiada, com altos salários, bonificações, auxílios, gratificações, incorporações salariais e nenhuma exigência de contrapartida produtiva. Transformamos o Judiciário num poder moderador de caráter despótico, muito preocupado em assegurar suas benesses e totalmente descolado da realidade social. Nossos poderes Executivo e Legislativo são dominados por uma polarização odiosa que dinamita nossa discussão sobre as políticas públicas e assenta o debate político sobre uma batalha irracional em que cada lado tem seus bandidos de estimação.
Ao mesmo tempo, chora o Brasil real, do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas – como lembra Caetano Veloso. E o nosso futuro segue nebuloso, esquálido e sem esperanças. Deus tenha misericórdia da nossa miséria social e política.

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano