Até os papagaios falam

“O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa.”
Caro leitor, vivemos em um mundo em que supostamente todos têm a possibilidade de expressar sua própria opinião, de falar. E com a internet, todos podem fazer crescer sua voz, fazendo com que ela se torne um grito. Dessa forma, todos falam, escrevem, opinam, criticam, dão sugestões. Tem gente até que fala para fazer apologia de uma causa que nem conhece. Hoje dizem que o importante é se expressar. Não importa se você vai dizer alguma coisa do senso-comum, se o seu texto está errado pelos padrões da língua, ou se vai machucar outra pessoa: todos querem libertar o grito que esteva preso dentro de si. O problema dessa situação toda é que o conteúdo virou supérfluo, não é necessário pensar no que falar, mas pensa-se apenas em falar. Grandes discursos, contundentes, coesos, brilhantes, que tinham a capacidade de modificar vidas, sistemas e situações, hoje já quase não existem mais. Só vemos o “mais do mesmo”. Ninguém mais se rebela contra formas antigas de pensar ou de fazer! O mesmo que foi feito ontem é replicado hoje com alguma pequena modificação. As teclas de “copiar-colar” dos computadores nunca funcionaram tanto! Somos todos imitadores. Imitadores sem a alma nem a força dos nossos imitados. Quando vemos algum imitador do Elvis Presley, por exemplo, podemos até nos espantar com as muitas semelhanças; mas as pequenas diferenças são fatais. O carisma, o gingado e o olhar eram outros. Mas nos contentamos com as imitações, sejam elas de pessoas ou de produtos. Imitar dá menos trabalho do que criar algo inteiramente novo; aliás, o mito que recai sobre a presente sociedade é que não há nada novo a criar, tudo já foi criado. Mas paradoxalmente, há o imperativo para que todos inovem. E isso nos dá a desculpa de pararmos de pensar. Fazer tudo novo, do nada, ou de uma matéria já existente, foi o ato supremo do Criador. Fazer valer toda a criação e ressoar os atos de Deus deveria ser a constante a ser buscada pelo ser humano.
Todos falam, muitos gritam, poucos têm o conteúdo e a credibilidade de nos fazer pensar e refletir. O discurso virou banal, pois a sua prática nunca é verdadeira. É só “da boca pra fora”. Falar, os papagaios também falam, e muitas vezes de uma forma muito mais graciosa que alguns de nós.
Se você está lendo este texto, é porque você de certa forma dá valor ao seu autor. E esse valor eu prezo muito e não quero perder.
“Dissestes que se tua voz tivesse força igual / à imensa dor que sentes / teu grito acordaria / não só a tua casa / mas a vizinhança inteira”.