Advento: tempo de renovar a esperança

Uma das capacidades mais preciosas do ser humano é a de definir e de convencionar categorias de conceitos que, consensualmente compreendidas, garantem alguma harmonia na convivência coletiva. Uma dessas categorias é a de tempo. Convencionamos o relógio e o calendário como referenciais seguros para a marcação do tempo e a definição das nossas atividades. No entanto, o tempo em 2020 passou num ritmo pouco convencional. O medo, a cautela, o instinto de preservação da vida, o cuidado com os outros, tudo isso marcou o nosso comportamento diante das ameaças da Covid e, ao mesmo tempo, fez ruir muitas seguranças e alterou sensivelmente projetos que dávamos como certos.

No final do mês de novembro do calendário civil, a Igreja inicia todo os anos o início de um novo tempo, dentro da sua dinâmica própria que dispõe dos dias para celebrar e revelar ao mundo o mistério do Cristo. A partir deste domingo, dia 29, até o dia 23 de dezembro, vamos vivenciar o tempo do Advento – palavra que significa chegada, vinda, espera.

Não se pode viver o futuro sem olharmos nossa história de vida e sem vivermos o hoje de cada dia. Esta concepção é bíblica, oriunda da experiência do povo de Israel que, ao se associar ao projeto libertador anunciado por Moisés, caminhou dia a dia até chegar à Terra que Deus tinha designado.

No Advento, que marca a espera pela Encarnação do Cristo, aprendemos que é preciso estar com os pés no presente, em sintonia com o passado, vivendo aquilo que virá. O apego ao tempo cronológico facilmente nos leva a uma noção enfadonha de que a vida nada mais é do que um suceder de rotinas que, na maioria das vezes, nos desanima e entristece. Nós, os cristãos, no entanto, somos chamados a viver nossos dias em permanente estado de advento. Para nós, cada momento é novo, único, cheio de surpresas que dão colorido à vida e que nos permitem fazer acontecer o sonho de Deus para a humanidade: paz, justiça, alegria. Assim transfiguramos nossa rotina num Kairós, o tempo da graça.

Quem vive apegado ao passado tem ressentimentos, remorsos, culpas, que, quando mal trabalhados, geram uma memória doentia que não se abre para a novidade oferecida diariamente por Deus. No entanto, se lançarmos um olhar  amoroso para nossa história, com suas marcas, fatos, lembranças, nossa memória passa a ser agradecida, redentora. Aí estaremos vivendo o Kairós, tempo que é dom, original, carregado de eternidade, da presença de Deus.

Celebrar o advento é antecipar as saudades do futuro, lembrando o Cristo que já veio, habita em cada um e que virá um dia para reinar plenamente em nós e no mundo. Viver o advento é lembrar que morremos e ressurgimos a cada dia, com nossos sofrimentos e alegrias.

Que este Advento renove nossas esperanças e nos coloque em marcha com o tempo que importa – o tempo da graça de Deus.

Jornalista e estudante de teologia pelo Centro Universitário Claretiano