Adormecidos no colo da mãe terra

Quarta-feira próxima, Finados, estaremos visitando o Campo Santo (cemitério), para rendermos nossas homenagens e fazermos memória aos nossos falecidos, através das Celebrações Eucarísticas, e de nossas orações particulares  àqueles que nos precederam na fé, e que cujos corpos hoje repousam no colo da mãe terra.
Não queremos celebrar a morte, porque, como cristãos, acreditamos na vida eterna, na qual Jesus propõe aos que N’Ele creem. Não queremos reviver a tristeza, mas proclamar a alegria da ressurreição e do encontro com Deus.
Na verdade, a vida dos que viveram a justiça, a verdade e o amor, não foi para eles “passageira ilusão”, mas uma caminhada rumo à casa paterna, onde chegaram através da morte do corpo. E nós, sobreviventes desta vida terrena, ficamos muitas vezes confusos, por não saber ao certo quem somos, por que viemos a este mundo, o que seremos, e tão pouco porque morremos. Simplesmente sabemos que somos donos da nossa história.
Portanto, confiantes de que o Pai nos aguarda também, sigamos em frente, continuemos girando nesta roda viva da vida, conscientes de que o que vale não é o que conquistamos, mas o que conseguimos com muita labuta a superar.
No meu conceito de cristã, a morte não é um fim, mas o começo de uma vida nova, uma vez que a vida não é tirada, apenas transformada, quando faremos parte de um lugar sagrado, onde não existem dores, nem incertezas, nem riqueza, nem pobreza, apenas o despojamento daquilo que acumulamos, enquanto por esta terra passamos.
Quando olho para o céu, me perco no infinito, rasgo o painel do tempo e imagino nossos familiares, amigos e parentes falecidos, bebendo no cálice da verdadeira vida, penso num mundo sem falsidade, onde em coro cantam os anjos, enfeitando todo o universo com suas magias divinas.
Tanto em Finados, quanto nos funerais cristãos, respeitamos nossos mortos, e por eles rezamos, intercedendo a Deus, que os conceda a misericórdia e o perdão que tanto suplicaram, nessas suas travessias pela porta da morte. Quando perdemos alguém que amamos, parece que junto vão nossas alegrias, nossas esperanças, parece até que perdemos a razão de viver. Mas com o passar do tempo, as dores da saudade vão sendo amenizadas pela presença de Deus que nos acalenta e nos reanima com o mesmo sopro de vida que D’Ele recebemos quando nascemos.
Muitas vezes, ou quase sempre, a gente não percebe que nossa vida é passageira, e que o ser humano não morre quando deixa de viver, e sim, quando deixa de amar, de se colocar a serviço do bem comum. Diante da nossa dimensão religiosa, precisamos entender e aceitar que a morte faz parte da vida. Pensando assim, visitamos frequentemente os túmulos dos nossos mortos, levamos flores que representam as alegrias de termos convivido com eles.
Nos Evangelhos, as santas mulheres também foram visitar o sepulcro do seu “morto”, levaram flores e perfumes, mas encontraram-se com o Senhor Ressuscitado. Confesso que não devemos chorar pelos mortos, e sim pelos vivos que ainda estão perdidos nas trevas da escuridão. Portanto, vivamos o bem, façamos o bem, porque não passaremos novamente por esse mesmo caminho, não há retorno.

 

Cinira Chiari Rovere, Ministra das Exéquias