Abraço

De todos os carinhos existentes, o abraço é o que mais me comove e conforta, sempre foi. É bom beijar, acariciar, transar, tocar. Só que abraçar bem, de verdade, é instigante, sensacional e autêntico por essência. E por ser um carinho assim tão explícito e gratuito, fica fácil e simples se entregar sem receios.
Veja, não há cobranças, tempo determinado, ninguém mede desempenho ou cria expectativas. Abraço é abraço. Pode ser feito de diversas maneiras, diferentes tons e sensações, com intenções secretas ou sem nenhuma grande intenção. O fato é que acontece aos montes, todos os dias, e ninguém pensa muito a respeito do que significa, simplesmente faz. Talvez por convenção, por hábito ou mesmo apenas por gosto. É uma ação genuinamente calorosa e sutilmente grandiosa.
É gostoso caber num abraço acolhedor, daqueles demorados, carinhosos e certeiros. É como um grande afago da vida, uma forma de sentir a fluidez do Universo de forma tão intensa e silenciosa. Há muito o que se saborear num enlaçar de braços. Toda glória da mão estendida ao acaso do amor despretensioso, ainda que somente uma fatia e de forma despercebida. Acontece uma doação bonita de energia nessa troca. Quando as almas se tocam, o tempo para ou deixa de existir. São segundos preciosos que se transformam numa eternidade de sensações boas, gentis, amáveis e doces.
Seja outro ser humano, um bichano, uma árvore, um bebê, o fato é que o abraço reconstrói algo que teima em se esvair e não tem nome. Poderia ser esperança, ânimo, não sei e não importa. Porque quando acontece, tudo se reconstitui, as forças redobram, o peito pulsa em calor, o sorriso brota, a energia se renova. E é tão simples. Engraçado perceber que justamente por conta da simplicidade, talvez não seja notoriamente reconhecida sua grandiosidade. Afinal, não tem cifras. Muitas pessoas não alcançam a importância por esse motivo. Devem ser as mesmas pessoas que também não alcançam que tudo o que é essencial não se vê, se sente. Talvez sejam as mesmas pessoas que não conseguem compreender o real valor do amor, da arte, da entrega, da vida. Há que se ter intensa sensibilidade para entender mesmo. Se não tiver, a vida tem sentido de pedra, precisa ter formato, ser pesada, cinza. Não deixa de ser um ponto de vista, uma escolha.
Sentir é muito para quem escolhe vivenciar a simplicidade que existe na grandiosidade das coisas. Ao que parece, afinal, tudo de mais grandioso reside em ser simples. Favor não confundir ser simples com ser simplório. Excluir as complicações e preocupações é uma forma bonita e modesta de se viver com qualidade, por representar a entrega à fluidez do que se tem, do que vem e do que se é. A aceitação, por entendimento, vem muito daí.
Abraçar é, por fim, a maior prova de que a eternidade realmente cabe numa fração de segundos. E de que é possível viver uma vida, que não acontecerá, dentro de um abraço sincero, apertado e íntimo em intenções. Não se mede tempo para entrega, amor, carinho, gentileza, mas é possível medir tudo isso por meio de um abraço.
Partindo desse princípio, desejo que as vidas sejam repletas de muitos abraços demorados, apertados, honestos e saborosos. E que as almas sejam invadidas por uma sensibilidade bem mística e generosa para que tenham ferramentas para conseguir captar e absorver essas sensações tão únicas e peculiares das energias dessa troca.
Quem abraça, assim por amor genuíno, é merecidamente mais feliz. Felicidade se mede por amor, se conquista por abraços.
Que você abrace a vida, hoje e sempre!

 

Daniela Vitor, escritora, mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Jornalismo (LabJor)  da Unicamp