Seu Gaspar: 60 anos de trabalho para dar forma às ruas da cidade

Seu Gaspar: 60 anos de trabalho para dar forma às ruas da cidade

Gaspar de Barros Correia: ao completar 80 anos, ele relembra dos dias de trabalho como calceteiro
Gaspar de Barros Correia: ao completar 80 anos, ele relembra dos dias de trabalho como calceteiro

Uma cidade é construída por pessoas. Cada detalhe do desenvolvimento de um município é resultado do trabalho de homens e mulheres que, por meio de suas diferentes funções, fazem a cidade continuar a crescer. Em Valinhos, seu Gaspar é uma destas pessoas. Hoje, aos 80 anos – completados no dia 5 de julho -, ele conta que chegou na região de Campinas aos 16 anos e durante mais de seis décadas se dedicou a um ofício: o de calceteiro, profissional responsável por calçar ruas e outros caminhos com pedras ou paralelepípedos.

Gaspar de Barros Correia desembarcou no país em 1956, após uma longa viagem de navio. Nascido em Bertiandos, Ponte de Lima, no norte de Portugal, ele conta que devido à crise vivida na Europa naquele momento, muita gente vinha tentar a vida no Brasil.

“Eu já tinha alguns parentes em Campinas, na Vila Industrial. Chegando, logo comecei a trabalhar em calçamento. Comecei junto com meu primo e lá fizemos muitas ruas (como a Coronel Quirino, Maria Monteiro), muito trabalho, ruas, empresas, postos de gasolina...”

Foi em 1958 que ele fez seu primeiro trabalho em Valinhos “Foi em ruas, praças, chácaras e empresas da cidade. Já são mais de 60 anos. Quando me casei, em 1965, vim morar em Valinhos e estou aqui até hoje”, afirma.

Para seu Gaspar, que hoje mora no bairro São Cristóvão, andar por Valinhos é relembrar de seus longos dias de trabalho. “Eu assentava os paralelos ou paralelepípedos que vinham da pedreira na areia. Ficava o dia inteiro fazendo isso – começava a trabalhar às 6h, largava às 16h com 1 hora de almoço. Era contratado para fazer por metro”, conta.

Para executar o trabalho, ele tinha um parceiro inseparável: seu radinho. “O que eu mais gostava de fazer era trabalhar. Conversar, ouvir o radinho durante o trabalho, um programa no Gazeta. O meu primeiro radinho foi dado pelo meu primo. E continuei ouvindo o radinho trabalhando para sempre, foi meu companheiro”.

Foi pelas mãos de seu Gaspar que ruas centrais da cidade tomaram forma como a Antonio Carlos, Onze de Agosto, Sete de Setembro, Francisco Glicério, José Milani, Itália, Dom Nery, Guarani, Silvio Concon; e muitas ruas de bairro como Marques de Itu, Angelo Capovila, São Paulo, Serra Negra, Itatiba, 12 de Outubro.

“Entre os momentos marcantes eu lembro de quando fizemos a Rua 7 de Setembro, quando ela foi alargada. Era uma rua que era estreitinha e o prefeito Jerônimo enfrentou muita rejeição, muita gente não queria, pela desapropriação”, lembra.

Além das ruas, o braço forte de seu Gaspar também passou por outros conhecidos locais como Fonte Santa Tereza, Fonte Sonia, Fazenda Castro Prado, Fazendo Fontoura, Rodoviária de Valinhos, Praça Washington Luiz, e muitas e muitas chácaras nos bairros do Joapiranga, Vale Verde e Country Club. 

“Esses trabalhos nas ruas de Valinhos foram feitos desde a época do primeiro prefeito de Valinhos, Jerônimo Alves Correia. Trabalhei em várias empresas tradicionais como a antiga Clark, Rigesa, Cotonifício Valinhos, Gessy Lever, antiga Ladema e na Rápido Luxo, onde estou até hoje.

O trabalho era duro, a jornada diária era longa, mas para seu Gaspar era tudo sempre feito com alegria e, tempo ruim, era só a chuva mesmo: “Não gostava quando chovia, que não dava para trabalhar. O vento incomodava, que era ruim pra tudo, a areia vinha na cara”.

Sobre a sensação de fazer parte da história da cidade, ele diz: “Às vezes tô sentado e fico pensando ‘esse serviço fui eu que fiz’. Tenho orgulho e uma saudade. Antes ficava triste quando via uma rua que eu assentei afastada, todo o trabalho que eu tinha feito foi coberto.

E do que sente falta? “De quando eu era jovem, que tinha força para fazer tudo, trabalho, futebol, bar, baralho do Rigesa, não parava 1 minuto”.

Atualmente, além de se manter na ativa como empreiteiro, ele tem no futebol uma de suas principais diversões. “Gosto de acompanhar os jogos, principalmente meu time que é o Guarani, conversar, trabalhar nas festas da paróquia”.

E a Valinhos de antigamente, seu Gaspar, como era? “Ah, são muitas diferenças, não tinha luz em todos os lugares, não tinha água em todos os lugares, muitas ruas eram de terra, como a Cândido Ferreira. A rua Sete era bem estreita, a Dom Nery não existia. A praça Washington Luiz era só uma fonte natural, e o pessoal ia buscar a água. A cidade mudou bastante, não tem nem comparação. Cresceu. Não tinha Mercado, só alguns Armazens, o Armazém do Pozuto e do Ferraro. Os bailes de carnaval já começaram logo quando eu cheguei. Tinha charrete, carroça. O trem passava, lotado de gente. A estação funcionava sempre lotada. Tinha amigos que trabalhavam na estação. Eu amo Valinhos, faz 55 anos que eu moro aqui. Nem que me pagassem eu saia daqui. Cuidem bem da cidade. Isso eu falo mesmo”.

 

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