Tempero brasileiro na Austrália

Tempero brasileiro na Austrália

Arquivo pessoal

Um pedaço da culinária brasileira está na Austrália. Um pedaço de Valinhos está lá. Desde a Copa de 2014, com um breve hiato de três meses, Vinícius Capovilla é o responsável por cuidar da alimentação dos jogadores das seleções profissionais e de base daquele país. Os resultados já começaram a aparecer. No ano passado, eles conquistaram o título inédito da Copa da Ásia, derrotando o Japão, de virada, por 2 x 1.
À Folha de Valinhos, Vinícius Capovilla detalha como foi a logística da Seleção australiana enquanto esteve no Brasil no Mundial de 2014 e como é o cuidado com a alimentação dos jogadores para os amistosos e torneios.

RAIO-X

Nascimento: Valinhos
Nome: Vinícius Martini Capovilla
Idade: 32 anos
Formação: Biologia e Gastronomia
Função: Chefe de cozinha da Federação de Futebol Australiana

Folha de Valinhos: Como iniciou seu trabalho com a Seleção Australiana?
vinícius capovilla:
Durante a Copa do Mundo aqui no Brasil, em 2014, a Seleção da Austrália precisava de uma pessoa que fizesse o intercâmbio entre a cozinha dos hotéis e o que a equipe médica pedia aos atletas. Por um contato, chegaram até mim, me perguntaram se eu gostaria de fazer isso e desde então estou trabalhando com eles e expandindo minha atuação na Federação.

Como foi esse período de trabalhar na Copa junto com a Seleção?
Foi incrível. Na verdade, a minha função é discutir com a equipe médica quais são as necessidades dos atletas e do time. Eu crio um menu embasado, entro em contato com o hotel e nós vemos o que dá para fazer com as adaptações cabíveis. O legal durante a Copa do Mundo aqui é que nós tínhamos uma cidade-base, que era em Vitória, no Espírito Santo. Lá, alugamos um hotel durante um mês, inteirinho nosso. Então, tinha toda uma equipe de cozinha e salão a meu dispor. Eram 50 pessoas que eu podia fazer o que quisesse, então eu controlava o hotel para oferecer o melhor para a equipe.

Há diferença na alimentação na Austrália em comparação ao Brasil?
Os australianos não têm um gosto muito forte, como no Brasil ou Itália. Eles gostam muito de cozinha europeia pela influência inglesa e terem muitos imigrantes. Hoje, eles têm uma influência asiática, então o menu que eu faço é europeu com um toque asiático. Mas o buffet que a gente cria para eles é gigantesco. A gente parte de três proteínas, uma sempre vermelha – eles gostam muito de cordeiro ou carne bovina -, depois sempre um frango ou peixe. Depois um prato a base de batata, um a base de arroz, um prato de vegetal, a massa, estação de sanduíches, saladas prontas ou para eles montarem, pães, sopa, castanhas e sobremesas – como não podem comer açúcar, são frutas e iogurte.

Como foi a adaptação dos jogadores aqui no Brasil?
Boa parte do time principal da Austrália já mora e joga na Europa e um pouco na China. Mas a Austrália tem um clima muito parecido com o Brasil. Têm elementos da nossa comida que batem com a deles, então não faz muita diferença. Por exemplo, eles não comem feijão, mas arroz, carne e vegetais são muito parecidos com o nosso. O que varia na nossa dieta para deles é, certamente, o feijão. Apesar de que eu tinha sempre uma estação a mais com um prato de cozinha brasileira. Quando eu estou em um país, eu gosto de puxar um elemento porque traz um pouco de cultura para eles também. Eles têm em torno de 20, 25 anos, então é legal trazer esse lado cultural. O prato que eles mais gostaram, além de moqueca, é o feijão tranqueira. E eles adoraram.

Como é a formação da sua equipe na cozinha?
Eu sou a única pessoa ligada diretamente à Federação. Os outros são parceiros que eu vou convocando para fazer um evento específico. Então, eu fecho um contrato que vai cuidar da seleção profissional ou base durante um campeonato. No profissional é sempre eu, hoje tanto no masculino quanto no feminino. Nas outras seleções não tem problema se eu quiser nomear uma pessoa para cuidar por um período.

Como foi feita a logística para os jogos da Copa do Mundo para ter a alimentação adequada?
A Copa do Mundo é diferente de outros campeonatos. Como a gente tinha uma sede, três dias antes do jogo eu deixava tudo organizado no hotel e eu viajava antes do time. Chegava em Cuiabá (local da estreia da Austrália) com o chefe de segurança. Enquanto ele cuidava da segurança, eu cuidava da alimentação: analisava os ingredientes, discutia o menu, organizava tudo para o início desse trabalho.

O hotel já era fechado antecipadamente?
Sim, a própria Fifa já estabelece quais são os hotéis. Então, quando tem o sorteio dos jogos, você já descobre se é o time mandante ou não, que eles chamam de A e B, já que não teria um “mandante”. Se eu sou o time B, eu já sei em que hotel eu vou ficar na cidade. E até mais: seleções que têm aspirações para chegarem à final, como a Alemanha que tinha uma pretensão de chegar à final como chegou, quando vão fazer as vistorias dos hotéis, eles já sabem onde vão jogar, qual é o hotel base, quais são os hotéis que eles vão ficar durante os jogos e eles fazem uma projeção da posição que vão ficar no grupo e visitam os hotéis que ficarão se terminar em primeiro ou segundo no grupo. Essa logística é comum porque tem que analisar os quartos, segurança, onde vai treinar, se tem academia no hotel, qual é o deslocamento, onde entra e sai do hotel, uma série de elementos.
Qual é a diferença da base alimentar na Seleção masculina e feminina?
Essa é curiosa. Tal qual no Brasil, na Austrália come muita proteína, diferente da Europa que já é bem mais balanceada com carboidrato. Na Austrália, eles enchem o prato de carne e frango e depois comem o resto – o que é estranho para um atleta, que normalmente é o oposto. O primeiro ponto que dá para falar é a quantidade de comida dos homens e mulheres. Segundo: mulheres são aficionadas por salada. Terceiro, que é um ponto que eu estou mudando: as mulheres nunca tiveram um chef ou alguém que cuidasse da alimentação delas. E as mulheres adoram um doce.

Qual é o peso da alimentação em um esporte de alto rendimento?
A mudança de alimentação não vai tornar um atleta mediano em um super atleta, mas vai transformar um atleta bom em um atleta excelente. A nutrição faz essa diferença. Eu vou citar o exemplo de um cara que não joga futebol: Djokovic é considerado o melhor tenista do mundo, e por acaso, já é considerado o maior tenista da história. Existe uma história muito curiosa que em 2010 o Djokovic não existia. Ele estava entre os 50 melhores do ranking, mas não conseguia ganhar dois sets de um cara como o Federer, Nadal ou Tsonga. O motivo disso é nutricional, ele é alérgico a glúten. Trocaram a alimentação dele e ele se tornou a máquina que é. 

Marcos Araújo, formado em jornalismo pela PUC-Campinas, colunista do Portal Terceiro Tempo, já passou por redações de rádio e online e coautor do documentário "As raízes do rádio esportivo de Campinas".