Raiz Sertaneja

Raiz Sertaneja

A Associação dos Muladeiros começou a partir das romarias para Aparecida do Norte porque os membros perceberam que as mulas eram mais resistentes do que os cavalos para fazer o caminho. São 300 km em uma semana

Raiz Sertaneja
Raiz Sertaneja
O sotaque caipira não deixa enganar o sangue sertanejo com DNA italiano. Márcio Fagnani nasceu na Rua Sete de Setembro há 63 anos. Valinhense não costuma deixar o “r” mais puxado, mas ele mantém viva a tradição e a raiz, que leva consigo nas romarias e nos desfiles de muladeiros, marca que registra o início da Festa do Figo.
Nesta entrevista, Márcio Fagnani revela a preservação desta cultura e explica como nasceu o tradicional desfile e as romarias para Aparecida.
 
Folha de Valinhos: Gostaria que o senhor falasse da sua relação com os animais, neste caso como muladeiro.
márcio fagnani: Esta paixão por animais e criação vem desde criança porque meu pai nasceu em sítio. Eu comprei meu primeiro cavalo aos 14 anos quando meu pai adquiriu uma propriedade que podia ter animal. Meu pai disse: ‘vai dar trabalho’, mas eu sempre gostei. Desta idade que eu comprei o primeiro nunca mais eu fiquei sem um animal, pelo contrário sempre tive mais do que um.
 
Como iniciou o desfile de abertura da Festa do Figo?
 
Com o passar dos anos, comecei a frequentar romarias junto com o Dr. Luis de Almeida, que na época tinha um haras. Conheci através de serviços da serralheria e conversando com ele tivemos a ideia de fazer um desfile para divulgar a Festa do Figo em Valinhos. Era uma boa ideia porque os antepassados, inclusive meus avós, tinham lavoura de figo levavam o figo até a estação com carroças puxadas por burros, cavalos. Foi aí que começou esse pensamento de fazer o desfile. Dr. Luis conversou com o prefeito na época, porque ele tinha mais proximidade, e propôs a ideia de fazer o desfile no sábado de manhã a Festa começar à tarde. Reunimos amigos, não eram muitos na época, percorrendo o Centro de Valinhos no sábado de manhã montados a cavalo e levando algumas bandeiras qual era a finalidade do desfile. Isso tomou uma proporção e cada ano foi aumentando até ficar difícil de percorrer o Centro da cidade. Passados os anos, foi criado o Clube de Cavaleiros de Valinhos e já resolvemos fazer no domingo porque era mais fácil trazer gente de outras cidades. No primeiro domingo da Festa do Figo era o desfile, depois nos outros domingos fazíamos provas com os animais. Mas o desfile cresceu muito e não tem mais espaço dentro da Festa do Figo, por isso este é o quarto ano que resolvemos fazer um domingo antes porque todo aquele espaço é nosso.
 
Qual é a expectativa da quantidade de muladeiros que devem participar do desfile?
 
Não são apenas muladeiros, mas colocamos no geral umas 800 pessoas também com charretes e contadas em boi.
 
Como é a preparação dos animais e das pessoas para o desfile?
O animal para fazer esse percurso não precisa tratar e treinar como se fosse para uma romaria, mas tem que vir ferrado, arreio e cela, por obrigação. Não permitimos que a pessoa venha
montada sem a cela - ou ‘a pelo’, como a gente costuma falar. Cada um é livre para vir com o vestuário que quiser, mas não permitimos que ande sem camisa porque é um desrespeito.
 
É muito presente nas romarias e até mesmo nos desfiles a fé sertaneja. Como você avalia isso?
É uma coisa que a gente tem que sempre resgatar e procurar passar isso. Eu passei para meu filho e minha filha, ele é veterinário e ela desde os 3 anos de idade sempre levei junto. A gente tem no sangue essa raiz sertaneja, do campo, por isso passamos e preservamos porque o nosso grupo tem pessoas mais velhas que mantém a tradição de ter mula, quando vai fazer um passeio coloca bota, calça jeans, chapéu de aba larga. É um resgate que a gente cria.