"Na Venezuela passávamos fome", relatam refugiados que vivem em Valinhos

"Na Venezuela passávamos fome", relatam refugiados que vivem em Valinhos

“O que as pessoas veem pela TV não é nada perto do que vivemos na Venezuela”, afirma refugiada que vive em Valinhos Yatsiris Guarez integra grupo de 37 venezuelanos que moram na cidade
“O que as pessoas veem pela TV não é nada perto do que vivemos na Venezuela”, afirma refugiada que vive em Valinhos Yatsiris Guarez integra grupo de 37 venezuelanos que moram na cidade

E se após trabalhar o mês inteiro, seu salário só garantisse a compra de um frango ou de um pacote de arroz? E se suas crianças não tivessem onde nascer porque os hospitais não possuem médicos, nem insumos? E se seus filhos não pudessem ir à escola? E se insegurança tomasse conta das ruas e a violência se tornasse uma realidade diária?

Essas eram as condições de vida na Venezuela quando o jovem Reiner Tovar, de 30 anos, decidiu juntar suas coisas e seguir para o Brasil. Em busca de uma nova vida, ele deixou a sua esposa e seus dois filhos na esperança de, em breve, poder buscá-los para garantir a eles algo que parece tão simples para a maioria dos valinhenses: a comida no prato.

Hoje morando em Valinhos ao lado de outros 37 venezuelanos, Reiner e sua família abriram as portas de casa para contar como vieram parar aqui. E, apesar de todas as dificuldades encontradas pelo caminho, o sorriso no rosto do jovem casal expressa um único sentimento: gratidão.

Reiner chegou ao Brasil em julho de 2018, após atravessar a pé a fronteira entre Brasil e Venezuela. Em Roraima, conseguiu dar entrada nos documentos necessários para permanecer no país. “Consegui um lugar para morar, mas era preciso pagar o aluguel. Para isso, saia todos os dias bem cedo pelas ruas em busca de emprego. Foram dias difíceis porque arrumar trabalho não foi fácil. Em alguns deles, eu não tinha o que comer e me alimentava com mangas que pegava das árvores”, conta.

Com os olhos marejados, Reiner relembra do dia em que uma senhora o abordou na rua e ofereceu a ele um prato de comida. “Ali, apesar de tudo que eu estava enfrentando, eu entendi que Deus estava cuidando de mim”, afirma.

Abalada com as dificuldades enfrentadas pelo marido, Yatsiris Guarez, de 28 anos, decidiu vir encontrá-lo. “Nada poderia ser pior do que o que vivíamos na Venezuela. Então, com muita dor, deixei minha filha mais velha com a minha mãe e vim para o Brasil. Eu sabia que podia ajudar meu marido e que, juntos, e com a força que Deus nos dá diariamente, conseguiríamos algo melhor”, relata Yatsiris.

Ela chegou em Boa Vista em outubro de 2018. Juntos, encontraram ajuda de uma freira, a quem carinhosamente chamam de senhora Íris. “Foi através dela que chegamos à Caritas Internacional e conseguimos passagens para São Paulo. Lá, moramos em um abrigo de uma Igreja por três meses. Saíamos cedo em busca de trabalho, mas as diárias que conseguíamos com como ajudante de pedreiro e faxina, por exemplo, ainda não eram suficientes para pagar um aluguel. Algumas pessoas nos pagavam apenas R$ 20 por dia de trabalho”, ressalta Yatsiris.

Foi quando, de acordo com o casal, mais um milagre aconteceu. “Deus mais uma vez colocou em nossas vidas uma mulher disposta a nos ajudar. Ela era diretora da creche de nosso filho e nos disse que se viéssemos para Valinhos poderíamos ter emprego e casa para morar. Viemos com medo porque parecia bom demais para ser verdade, mas quando chegamos aqui, foi exatamente o que aconteceu”.

Hoje, Reiner e Yatsiris vivem com seus dois filhos em uma casa no Jardim dos Pinheiros e trabalham em uma empresa da cidade. “Fui buscar minha filha assim que pude. Hoje temos comida na mesa, vivemos em segurança e nossos filhos frequentam a escola. Seremos eternamente gratos a Deus e a todos que nos ajudaram”.

Após se estabelecerem na cidade, Reiner e Yatsiris decidiram ajudar outros familiares. “O que as pessoas aqui do Brasil veem pela televisão não é nada perto do que passamos na Venezuela. Nossos parentes estão passando fome, nossas crianças estão morrendo. Então, quem pudermos ajudar, nós vamos ajudar”, garante a jovem.

Sobre voltar à Venezuela, Yatisiris afirma: “Nossos familiares ainda estão lá, é o nosso país, então com certeza gostaríamos de voltar. Mas hoje não vejo nenhuma possibilidade de ter uma vida boa lá. O Governo destruiu nosso país. Está tudo acabado. Se um dia ele mudar, será daqui muitos e muitos anos. Nossos filhos já estarão crescidos, estabelecidos aqui. Então realmente não tenho esperanças de que isso aconteça”, diz.

Entre os venezuelanos que vieram para Valinhos por intermédio do casal, estão Jeaneth Elhalabi e Yonar Tovar, irmão de Reiner. Cheios de simpatia e com sorriso no rosto, eles afirmam que viver em Valinhos é a realização de um sonho. “Diante de tudo que passamos em nosso país, é um sonho viver aqui. Nossos três filhos estão na escola, temos comida, e em breve também teremos trabalho. Só podemos agradecer”, afirmam.

Em janeiro deste ano, como forma de retribuir o acolhimento que têm recebido na cidade, os venezuelanos foram voluntários na Festa do Figo. “Foi uma forma de retribuir todo o carinho que temos recebido e nos tornarmos conhecidos. Queremos que as pessoas da cidade nos conheçam e vejam que somos pessoas do bem, pessoas dispostas para todo tipo de trabalho, pessoas batalhadoras”, diz Jeaneth.

Yatsiris Guarez, de 28 anos e seu esposo Reiner e os filhos Yeiner de 3 anos e Yunielys de 9 anos 

Jeaneth Elhalabi e seu filho 

 

Projeto de Acolhimento

Em Valinhos, os venezuelanos são assistidos pelo Projeto de Acolhimento liderado pelo gerente administrativo César Fernando Braghetto. “Começamos este projeto em 2017, ajudando refugiados haitianos que chegaram em nossa cidade. A dificuldade com eles foi ainda maior devido à língua, que difere completamente do português. Conseguimos voluntários por meio do Projeto Janela Aberta que ministram aulas do nosso idioma para todos. Atualmente são 40 haitianos, 37 venezuelanos (sendo 15 crianças) e alguns africanos”, diz César.

Para manter o projeto, César firmou parceria com empresas da cidade dispostas a contratar os refugiados. “Emprego é o que eles mais querem quando chegam aqui. Dizem que é a única forma de manter a dignidade e que se têm o emprego, todo o resto pode ser conquistado. São pessoas honestas, batalhadores. Para mim, ajuda-los é a realização de um sonho. O sonho de fazer diferença, de transformar vidas e de poder ajudar de alguma forma pessoas que realmente precisam”, relata.

Além da parceria com as empresas, o Projeto também conta com a ajuda de diversas igrejas da cidade e recebe doações de cidadãos que se dispõe a ajudar. “Eles precisam de roupas, sapatos, brinquedos para as crianças, móveis e tudo mais. Alguns ainda estão em busca de emprego e qualquer ajuda é bem-vinda”, afirma.

Para colaborar com o Projeto basta entrar em contato com César Braghetto pelo Facebook ou entregar as doações na Rádio Valinhos, um dos pontos de arrecadação da cidade.

Festa de acolhimento acontece neste domingo
Uma ação feita pelas redes sociais garantiu o material escolar de todas as crianças do Projeto de Acolhimento. Cada cidadão disposto a contribuir adotou uma criança, arcando com os custos do material. Neste domingo, dia 16, das 12h às 17h, uma grande festa de acolhimento será promovida para reunir os padrinhos e as crianças. O evento será realizado no Recanto dos Velhinhos, localizado na Rua João Bissoto Filho nº 2061, no bairro Ortizes. Toda a comunidade está convidada. Para participar, basta levar um prato de doce ou salgado e um refrigerante. Os interessados também podem colaborar com o Recanto dos Velhinhos com a doação de um pacote de fralda geriátrica.

Para animar o evento, a música ao vivo ficará por conta do haitiano Guipson Pierre, que conquistou o país após sua participação no 'The Voice Brasil'. Guipson foi um dos imigrantes acolhidos em Valinhos.

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