Na Entrevista da Semana, Dr. Alexandre Veronez fala sobre a Covid-19

Na Entrevista da Semana, Dr. Alexandre Veronez fala sobre a Covid-19

RAIO-X
Nome completo: Alexandre Veronez
Idade: 45
Cidade onde mora: Valinhos
Especialidade: Biomédico
Principais funções: Coordenador de Microbiologia e Biossegurança dos Laboratórios DMS Burnier

“Se não tivéssemos adotado o isolamento social, o número de mortos seria maior”

O cuidado com detalhes do dia a dia é uma das principais formas de evitar a contaminação pelo coronavírus. Nas idas ao supermercado, padarias ou farmácias, na hora de receber uma refeição comprada via delivery, ao entrar no elevador, todo cuidado é pouco. Em entrevista à Folha de Valinhos, o biomédico e coordenador de microbiologia e biossegurança dos laboratórios DMS Burnier, Dr.  Alexandre Veronez, opina sobre o cenário atual e dá dicas sobre cuidados que podem garantir mais proteção a pandemia.

Milhares de cidadãos pelo país têm protestado contra a quarentena estabelecida por estados e municípios. Como o senhor vê as medidas de distanciamento social? Acha que são realmente necessárias neste momento?
As medidas de restrição, como as que foram adotadas, são fundamentais para retardar a evolução do vírus, diminuindo assim o número de infectados em nossa cidade e em todo o país. A quarentena é um recurso usado há muito tempo para evitar que doenças se espalhem. Quando se faz o isolamento de indivíduos é porque temos um alto risco de propagação da infecção...

Como Biomédico, o senhor acha que é possível equilibrar saúde e economia neste momento?
Acredito que esse seja o desafio dos governantes, equilibrar saúde e economia nesse momento é muito difícil e cabe a cada município estabelecer estratégias baseados em primeiro lugar em estudos e ciências. É de extrema importância realizar um planejamento onde os governantes busquem alternativas para ajudar os comerciantes, as empresas nesse período difícil.

Caso a quarentena não tivesse sido adotada, qual impacto o senhor acredita que isso teria no sistema de Saúde?
Mesmo adotando em partes a quarentena, hoje estamos vivenciando um colapso no sistema de saúde. Se não tivéssemos adotado o isolamento social tenho certeza de que esse colapso já teria acontecido precocemente e hoje o número de mortos seria maior.

Na sua opinião, qual a principal ferramenta para conter a disseminação do coronavírus?
Em primeiro lugar conscientização das pessoas em relação ao vírus. Ele existe e está causando a morte em muitas pessoas. E depois, seguir todas as recomendações e orientações de órgãos de saúde.

Por que o COVID-19 evolui de forma mais grave em idosos e pessoas com comorbidades?
As deterioração do sistema imunológico que acontece durante o processo de envelhecimento do corpo, chamada de imunossenescência, é a principal causa por trás do maior risco que os idosos têm de desenvolver uma infecção mais grave causada pelo coronavírus e outras doenças. Essas alterações levam a um aumento da incidência e da gravidade de doenças infecciosas, sejam elas causadas por bactérias ou vírus.

Com o envelhecimento, há uma redução no número e na atividade das células que ajudam a combater a presença de agentes capazes de prejudicar a saúde do organismo. Isso porque, a imunidade mais baixa reduz o reconhecimento de novos antígenos, ou seja, o corpo do idoso não reconhece um novo vírus como um invasor e demora a reagir, o que facilita o desenvolvimento de infecções e contribui para uma resposta ineficaz.

Os pacientes com comorbidades que possuem doenças causadas pelo excesso de peso, como diabetes, hipertensão arterial e doenças cardíacas, também precisam redobrar os cuidados em relação à prevenção da Covid-19. Isso porque, pessoas com essas comorbidades fazem parte do grupo de risco da doença e, por terem o organismo mais debilitado, também apresentam maior dificuldade em frear o vírus, e possuem alto risco de complicações graves causadas pela Covid-19.

Muito tem se falado sobre a utilização da cloroquina no combate ao coronavírus. Qual sua opinião sobre o assunto?
Seria de fundamental importância se de fato a cloroquina fosse eficaz contra o vírus. Mas, de acordo com as organizações de saúde, ainda não temos nada cientificamente comprovado. Por isso, é preciso tomar muito cuidado com o uso desse medicamento, principalmente, por conta dos efeitos colaterais.

A utilização de máscaras é de fato eficiente na contenção da disseminação do coronavírus? Por quê?
Sim a máscara é uma das medidas de proteção contra a contaminação por coronavírus. Mas, é importante ressaltar que além das máscaras, também precisamos manter o distanciamento social e todas as medidas de higiene pessoal, como por exemplo, a lavagem das mãos, limpeza das superfícies, deixar os sapatos para fora de casa, entre outras.

Quais cuidados devem ser tomados na hora de utilizar as máscaras?
As máscaras descartáveis após o uso devem ser jogadas no lixo comum, nunca no lixo reciclável. As caseiras devem ser trocadas de duas em duas horas após o uso e antes de usar novamente fazer a lavagem dela. Independente do modelo, a máscara precisa estar bem ajustada ao rosto, protegendo o nariz e a boca. Outra recomendação é que o uso de produtos de beleza como batom e pós deve ser evitados, porque eles interferem na eficácia das máscaras.

Se eu moro em prédio, devo colocar as máscaras antes de entrar no elevador, mesmo que ele esteja vazio? Por quê?
Sim, porque você entrará em um ambiente que talvez esteja contaminado. O vírus pode se depositar e permanecer por um período nas paredes, botões e ate mesmo no ar por meio de micro gotículas de alguém que tenha acabado de usar o elevador.

Alguns especialistas têm demonstrado preocupação com a chegada do inverno porque acreditam que as temperaturas mais baixas podem colaborar para uma aceleração na propagação do vírus. Isso é verdade? Devemos nos preocupar?
O tempo seco e a baixa umidade relativa do ar, característicos do inverno, propiciam o desenvolvimento de vírus e bactérias responsáveis pelas alergias e doenças respiratórias. Isso porque há uma redução dos mecanismos de defesa do organismo, o que propicia o aumento da incidência de doenças respiratórias como a asma, bronquite, rinite e sinusite.
Como a Covid-19 atinge, principalmente, o sistema respiratório, as condições climáticas do inverno tem sido um motivo de preocupação entre os especialistas.

Por quantos dias uma pessoa que está contaminada é capaz de transmitir o vírus? Já é possível traçar um ciclo?
O período médio de incubação por coronavírus é de cinco dias, com intervalos que chegam a 12 dias, período em que os primeiros sintomas levam para aparecer desde a infecção. A transmissibilidade dos pacientes infectados por é em média de sete dias após o início dos sintomas. No entanto, dados preliminares de alguns estudos sugerem que a transmissão possa ocorrer mesmo sem o aparecimento de sinais e sintomas.
Fato é que, até o momento, não há informações suficientes de quantos dias anteriores ao início dos sinais e sintomas uma pessoa infectada possa a transmitir o vírus.

Muito tem se falado sobre a sobrevivência do coronavírus em diferentes superfícies. É possível afirmar de fato quanto o vírus sobrevive e permanece transmissível em superfícies como plástico, papelão, metal e etc?
Existe vários estudos que apontam que o vírus pode permanecer em superfícies de 3 a 11 horas. Isso depende de alguns fatores como carga viral que está nessa superfície, local e temperatura a que essa superfície está exposta. Vale ressaltar, que lavar as mãos com água e sabão, usar álcool 70%, limpar e desinfetar superfícies frequentemente são medidas essenciais para impedir a propagação da COVID-19.

Ao pedir comida via delivery, devo ter cuidados especiais ao receber a embalagem? Quais?
Sim, após receber a comida descartar de imediato as embalagens e logo em seguida fazer as lavagens das mãos. Existe o risco de a embalagem estar contaminada e transmitir o vírus para as mãos.

Ao voltar do supermercado, é realmente necessário desinfetar todos os produtos, incluindo frutas e hortaliças? Por quê?
Sim, nos supermercados muitas pessoas têm contato com os produtos. Por isso é necessário que se faça uma higienização das latas, embalagens, das frutas e hortaliças.

Qual a maneira correta de fazer a desinfecção destes produtos?
Uma higienização simples com água, sabão e água sanitária já é o suficiente.
Lavar as frutas e hortaliças em água corrente, deixar de molho em um recipiente com água e água sanitária (observar as recomendações de diluição nas embalagens do produto). As latas podem ser lavadas com água e sabão e nas embalagens de papelão como caixa de leite pode ser feita a higienização com um pano úmido com a mesma solução de água sanitária ou com água e sabão.

Deixe uma mensagem para a população valinhense.
Estamos vivendo uma situação muito difícil nesse momento, cada pessoa passa por uma situação diferente. As máscaras se tornaram um símbolo de proteção e solidariedade precisamos usá-las. Precisamos ter bom senso, Respeito e principalmente amor ao próximo.

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