Josué Roupinha Jr. fala sobre a importância da Consciência Negra

Josué Roupinha Jr. fala sobre a importância da Consciência Negra

Josué Roupinha Jr.
Josué Roupinha Jr.

RAIO X

Nome - Josué Roupinha Jr.

Idade - 26 anos

Formação - Jornalista 

Membro da Associação Cultural Afro de Valinhos

‘A consciência negra deve acontecer todos os dias do ano’

A Folha de Valinhos entrevista Josué Roupinha Jr., valinhense, 26 anos, formado em Comunicação Social, jornalista e tutor universitário, ativista que luta pelos direitos do negro em Valinhos. Josué fala sobre a importância do Dia da Consciência Negra, data lembrada no último dia 20, e destaca as conquistas e os desafios dos negros.  

Fale sobre seu envolvimento com a causa
Faço parte da Associação Cultural Afro, fui um dos idealizadores do Projeto Selo Diversidade Cultural que escolas da Região Metropolitana participaram com desenhos para simbolizar o racismo e negro. Acredito que pelo fato de ser jornalista, professor formado por uma instituição de ensino privada e uma das melhores a que a gente tem no Estado isso faz com que eu já tenha um envolvimento direto e indireto na causa porque eu sou a exceção à regra. A gente conseguiu ter um trabalho e vem fortalecendo cada vez mais em Valinhos. Trabalhei para dar visibilidade para os terreiros da cidade. No ano passado eu levei o primeiro terreiro de umbanda da cidade para um evento da Consciência Negra que nós realizamos todos os anos na Praça Zumbi dos Palmares no Bom Retiro. Os terreiros nunca foram lembrados pelo Poder Público da cidade. Nesse dia conseguimos mostrar que nós temos espaço e temos voz. Além disso nós negros conseguimos trazer uma ação da CUFA (Central Única das Favelas) para dentro do São Bento, que é onde está concentrado a maior parte da população negra de Valinhos. É uma região que as famílias ainda tem muitas carências, vulnerabilidade social e nós fizemos uma ação. Entregamos kits de higiene, demos doces para as crianças, falamos do trabalho da CUFA, que é essa união entre as pessoas de vulnerabilidade.

Qual a importância do Dia da Consciência Negra?
Não é uma data comemorativa. Mas sim uma data para a gente lembrar dos nossos ancestrais, da luta do povo negro ainda para conquistar espaço no mercado de trabalho. Para evidenciar que os dados estão aí. A diferença salarial entre brancos e negros dentro do mercado de trabalho é alarmante, o genocídio dos jovens negros, a intolerância religiosa quando a gente fala sobre terreiros de umbanda e candomblé, infelizmente a gente vê na legislação muitas coisas para prejudicar as religiões de matriz africana, tem até alguns municípios como Valinhos que colocam leis para proibir o uso de animais em rituais litúrgicos que faz parte sim da candomblé, da cultura negra no candomblé. E a gente vê municípios cerceando esses direitos que são direitos constitucionais. É uma data para lembrar o quanto o nosso povo ainda precisa lutar por espaço.

Existe consciência negra?
Infelizmente a gente vê muitos posts no dia 20 de novembro com o Morgan Freeman falando ‘Temos que pensar na consciência humana’. Mas se a consciência humana realmente tivesse uma consciência boa, ela pensaria na consciência negra e na situação dos negros no país. Os negros não colocam só sofrimento e dor. No dia 20 de novembro a gente coloca dados, nossa realidade porque nós temos ao mesmo tempo uma história muito bonita de reis e rainhas, mas isso foi apagado ao longo do tempo justamente por não quererem que a nossa raça ficasse num pé de igualdade. Por sempre colocarmos os negros numa situação inferior. Então essa data é importante para a gente poder mostrar nossa cara, tirar a invisibilidade que a gente tem em todos os espaços na mídia, mercado de trabalho, política, espaços de poder. E assim poder falar e reorganizar para gente conseguir trazer novos dados, melhores dados a cada ano que passa. É uma data de muita lembrança do que a gente já passou, do que a gente passa e traçar um novo rumo.

Quais as principais conquistas?
A gente tem a política de cotas. Ela não é aceita porque infelizmente pessoas brancas acreditam que vão perder espaço na universidade pública, o que é uma mentira. Para quem realmente entende o sistema de cotas sabe que isso é inverdade. A principal conquista é a política de cotas que foi pouco, pequena. Mas essa é a nossa principal conquista. Tenho a posição que a política de cotas não deve ser política para sempre, teria que ser com prazo de validade, está aí desde 2002 justamente pela ausência do Estado. Se o Estado desse condições mínimas de igualdade social, economia, e reparasse com a dívida histórica que o Estado tem com os negros, a gente não precisaria de política de cotas. Essa dívida é latente. Na escravidão enquanto os negros estavam nas fazendas sendo escravizados, as pessoas brancas e migrantes italianos e japoneses e outros estavam recebendo terras do Estado para poder produzir e plantar. Conseguimos avançar um pouco dentro da questão da educação. No cenário 2020 tivemos um percentual mínimo, mas que dá um pouco de alívio. Tivemos pessoas negras disputando a vereança que conseguiram um espaço no poder público, mas que ainda é muito pouco.

Quais os principais desafios?
Nós precisamos cada vez mais conscientizar nossa comunidade porque as pessoas não negras elas sabem como dar palpites em questões que são referentes a vida do negro. E o negro acaba escutando o que a mídia e outras pessoas não negras dizem e acabam acreditando que aquele comportamento é o correto. O desafio maior para o negro agora no século 21 é se juntar, se reconhecer como negro, para gente conseguir conquistar espaço. A gente precisa trabalhar nossas bases, conscientizar o negro sobre a cultura dele, a história dele. Porque nós temos história e cultura riquíssimas. Nós devemos ocupar todo o espaço público. Falar isso pode parecer incoerente porque se o negro não estuda e não trabalha ele morre de fome. Mas a partir do momento que os negros se juntarem e perceberem que se estiverem juntos por um ideal a gente consegue mudar muita coisa ao longo dos próximos anos. Outro desafio: nossa cultura que foi invisibilizada. Não podemos ter os nossos orixás, e a nossa fé exposta da mesma forma que as outras religiões tiveram.

Qual recado pode deixar para os valinhenses?
Esse é o trabalho que gente faz em Valinhos e vamos intensificar cada vez mais porque acredito que seja esse o nosso papel. O trabalho em prol da causa e pensando no dia 20 de novembro é importante. Mas a consciência negra deve acontecer todos os dias do ano e sim a gente tem que entender que consciência humana é uma coisa, e consciência negra é outra coisa.