Entrevista da Semana: Franciela Krasucki

Entrevista da Semana: Franciela Krasucki

Marcos Araújo

Medalhista de ouro nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara em 2011 no revezamento 4x100 metros, a valinhense Franciela Krasucki está muito perto de integrar a seleção brasileira de atletismo nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em agosto. A marca de 11 segundos e 31 centésimos, índice olímpico alcançado nos 100 metros rasos, no Camping Internacional de Treinamento e Competições de Revezamento e Velocidade, nos Estados Unidos, deu tranquilidade a atleta para até tentar abaixar a marca, seu próximo objetivo, como ela prevê nesta entrevista à Folha de Valinhos.

Folha de Valinhos: Qual é o objetivo do Camping nos Estados Unidos e qual o balanço que pode ser feito?
franciela krasucki: Esse Camping era visando mesmo tentar o índice olímpico. Foi um camping de 29 dias nos Estados Unidos. Tivemos uma grande estrutura, os meus treinos renderam muito, sabia que esse índice poderia me ajudar na competição. Foi bem legal a experiência de estar neste Camping, melhor ainda para pegar um ritmo, como aqui no Brasil estávamos um pouco sem competição, (no Camping) fizemos três competições seguidas.

Como é a divisão de preparação no Camping entre treino e competição?
Nós chegamos na Flórida em uma segunda-feira e na sexta-feira fizemos uma competição. Treinamos mais uma semana e no outro fim de semana fizemos outra competição. Depois ficamos praticamente 10 dias sem competir só treinando visando às competições que foram quinta-feira, sexta-feira e sábado (14, 15 e 16). Quando a gente começa a competir demais, acabamos não treinando, então tiramos 10 dias, optamos por não competir para treinar para as três últimas competições, que eram as mais fortes.

Você esperava conseguir o índice olímpico nos 100 metros no Camping?
Na verdade, já era para ter saído aqui no Brasil em algumas competições que eu tinha feito porque eu estava treinando muito bem. Mas eu não estava conseguindo porque ano de Olimpíada é um ano muito difícil para os atletas. Por mais que seja um Campeonato Mundial para a gente – às vezes um campeonato mundial é mais forte que os Jogos Olímpicos -, mas o peso dos Jogos Olímpicos complica para todos os atletas. No lugar de eu estar correndo para fazer uma boa prova, pensando em técnica, eu ficava pensando só em tempo, tempo, tempo, e eu acabava estragando um pouco a minha prova. Eu errava o começo, senão eu errava o final, então esse Camping serviu para treinar e pegar estas três competições para fazer o índice. Nesta competição que eu fiz o índice, sabia que eu estava bem, entrei muito concentrada, mas me surpreendi com o resultado. Eu achei que ia sair na sexta-feira e não na quinta, porque era uma competição mis forte. O objetivo do Camping foi cumprido, que era o índice mesmo para dar uma tranquilizada. Não tem nada definido, até porque só fica definido para a gente depois que sai a convocação, mas o primeiro passo foi dado. Agora, é treinar e melhorar a marca, que não foi tão forte. O índice era 11 segundos e 32 centésimos e eu corri 11 segundos e 31 centésimos – o meu melhor é 11 segundos e 13 centésimos.

Como está a preparação para os Jogos Olímpicos, já que você deve estar lá, e como controlar a ansiedade?
Eu estava muito mais ansiosa antes  de fazer esse índice, agora estou bem mais tranquila. Eu até brinco com o Adriano (Vitorino), meu treinador, que eu tirei um peso das costas porque, realmente, eu estava sentindo esse peso, ainda mais por ter passado um ano e meio muito difícil, em que eu não estava conseguindo correr. O meu melhor resultado ano passado foi 11 segundos e 52 centésimos. Eu ficava naquela ‘será que eu sei correr ainda?’ e os treinos e a competição mostraram que eu sei. Agora, a gente vai focar nos treinos para melhorar a marca porque 11 segundos e 31 segundos foi um tempo bom, que foi o índice, mas dá para correr bem abaixo. Eu já estou treinando para correr abaixo de 11 segundos e 20 centésimos. Nós vamos em busca de melhorar a marca para chegarmos nas Olimpíadas bem, tentando uma vaga na final. Eu não quero estar lá só para participar, quero estar lá para brigar por uma marca na final nos 100 metros, e quero agora tentar o índice nos 200 metros, que eu fiquei bem perto do índice nos Estados Unidos, e o revezamento 4x100 metros. Agora, realmente, é focar nos treinos para as próximas competições para chegar bem nas Olimpíadas.

A partir de agora, como é administrar o calendário de provas que valem índice olímpico e o tempo para treinar?
Eu e o Adriano vamos sentar para conversar sobre quais competições ele acha interessante fazer. A gente não pode entrar em todas porque senão a gente não treina mesmo, só competimos e o corpo acaba sentindo a falta de treino. Vamos focar em algumas competições e não vamos competir com muita frequência porque precisamos de um ritmo. É treinar mesmo e fazer as competições que são necessárias, até porque a gente tem que tomar um grande cuidado para evitar lesões no meio do caminho.

A Olimpíada, sendo no Brasil, traz um desafio maior?
É o sonho de qualquer atleta chegar aos Jogos Olímpicos. Eu já fui para todas as competições que eu poderia ir, fui para os Jogos Olímpicos de Londres, mas este ano será diferente. Eu vou realizar o grande sonho que é ir a uma prova individual e ir com o revezamento. Sabemos que a pressão é muito grande por ser em casa. Os brasileiros vão cobrar muito isso da gente, mas o bom é que quando a gente entra na pista, esquecemos um pouco o fator externo e pensamos somente na prova. Neste critério vou estar muito bem preparada psicologicamente para suportar a pressão dos brasileiros e até de nós, atletas. Além da torcida, a gente se cobra muito mais.

O que passa na cabeça da Franciela naqueles segundos antes do tiro inicial?
Eu tenho que correr. Na verdade, eu até brinco, que eu não me lembro da prova nos meus melhores resultados. Se você me perguntar ‘o que você sentiu? o que você viu na tua prova quando você fez o índice?’: nada. Eu não me lembro de nada. Eu só sei que eu corri, mais nada. Eu me concentro bastante, eu tento pensar só em mim, na minha raia, sem me preocupar em quem está do lado porque eu fui treinada, eu já fiz tudo o que tinha de ser feito para aquela competição, então eu só penso em correr.

Marcos Araújo, formado em jornalismo pela PUC-Campinas, colunista do Portal Terceiro Tempo, já passou por redações de rádio e online e coautor do documentário "As raízes do rádio esportivo de Campinas".