Entrevista Carla Martelli

Entrevista Carla Martelli

Formada pela Escola de Arte Dramática da USP, Carla Martelli é atriz e dubladora. Entre seus principais trabalhos está a dublagem da personagem Tóquio, da série La Casa de Papel.
Formada pela Escola de Arte Dramática da USP, Carla Martelli é atriz e dubladora. Entre seus principais trabalhos está a dublagem da personagem Tóquio, da série La Casa de Papel.

Formada pela Escola de Arte Dramática da USP, Carla Martelli é atriz e dubladora. Entre seus principais trabalhos está a dublagem da personagem Tóquio, da série La Casa de Papel.

Morando no bairro Jardim das Palmeiras, em Valinhos, desde 2002, ela fala com exclusividade a Folha de Valinhos sobre os desafios da carreira e as suas principais conquistas.

Quando você descobriu que queria seguir carreira artística?
Sempre quis ser atriz, desde criança, nunca quis outra profissão, e nunca trabalhei em outro segmento. É assim que me sinto feliz e completa. Sei que pode parecer clichê, mas somente aqueles que se entristecem fora do palco podem entender o quanto é vital praticar a arte.

Quando começou de fato? Qual foi sua primeira experiência?
Faço teatro amador desde criança. Mas aos 15 anos fui convidada a fazer parte de uma Cia. de Repertório de Campinas chamada Pão e Água Produções Artísticas, coordenada pelos atores Helcio Henriques e Helô Marques. A partir deste momento me profissionalizei. Apresentávamos diversos espetáculos, adultos, infantis e musicais, viajando por diversas cidades do Estado de São Paulo principalmente. Fiz parte da última leva que pôde tirar o DRT profissional de ator aos 16 anos. E com 18 anos, passei por uma rigorosa seleção na EAD/USP, onde ingressei e obtive uma formação de excelência, e conheci os melhores profissionais de artes cênicas do país. Nunca mais parei. Sempre vivi da arte e tenho muito orgulho disso. Às vezes temos dinheiro, às vezes não, é o risco de se fazer o que ama.

Qual foi sua sensação durante a primeira experiência?
Estava muito nervosa quando apresentei meu primeiro espetáculo, “O Cupido Amoroso”. Foi na escola de teatro “Jorge Andrade” em Campinas, que hoje já não existe mais, uma pena, pois era uma escola maravilhosa. Eu interpretava uma freirinha, cuja mãe era dona de um hotel muito atrapalhado onde aconteciam diversas confusões de encontros e desencontros. Era uma personagem pequena, mas me lembro de na hora de entrar em cena, esquecer minha fala, e quando chegou o momento de falar, tudo veio rapidamente a minha mente. Foi uma sensação única, de medo com prazer e alívio. Depois disso, nas outras sessões de apresentação da mesma peça, me senti segura, e comecei a ficar muito à vontade em cena.

Quais foram seus principais trabalhos até hoje?
Hoje eu trabalho bastante com dublagem, sou a dubladora da Tóquio da série La Casa de Papel, e diretora de dublagem na Dubbing Company Campinas. Assino a direção de dublagem do filme A Barraca do beijo que está na Netflix, e outras tantas séries e filmes.
Nos palcos hoje eu integro o elenco do espetáculo Pagliacci da Cia. LaMínima de teatro, da qual um dos fundadores foi o ator Domingos Montagner.
Fiz parte do elenco de protagonistas do musical A Gaiola das Loucas com direção de Miguel Falabella, e também integrei o elenco de sua série na Rede Globo “A Vida Alheia”.
Além de atriz você também é dubladora. Como começou?
Minha experiência de dublagem começou com alguns cursos que fiz em São Paulo, mas se concretizou na Dubbing Company Campinas, onde tive a oportunidade de atuar como dubladora e posteriormente diretora de dublagem, com o atestado de capacitação profissional do SATED em direção de dublagem. O primeiro personagem protagonista que dublei foi o Chavapa, um gatinho, uma voz de menino, no desenho MOUK que até ano passado estava no catálogo da NETFLIX. Foi um grande aprendizado.
Dublar é uma delícia! A dublagem é uma vertente do trabalho de ator, portanto, o dublador precisa ser ator para atuar na área, o que deixa ainda mais gostoso. Em um dia posso interpretar uma assassina, uma mocinha e um personagem louco em um desenho. A dublagem proporciona tudo isso.

Quais foram os principais desafios enfrentados no começo?
No começo se enfrenta dificuldades de aceitação no mercado, que é antigo e um pouco preconceituoso com quem começa. É preciso ter persistência, mas acima de tudo,  ser autocrítico, para crescer e angariar novos espaços. A dublagem é a vertente da atuação mais difícil, porque você tem que se encaixar na energia de outro ator, em um personagem que foi ele quem criou, alguém que possui uma cultura diferente  e, portanto, uma língua diferente, por isso o tempo de fala e entonações são muito destoantes de nós. É preciso muito técnica, sensibilidade e intuição de ator.

Quais são as principais dificuldades do meio artístico e cultural?
A principal dificuldade no meio artístico cultural é o patrocínio. O artista encontra, e sempre encontrou, obstáculos para concretizar sua arte em um mundo onde tudo é muito material e racional, colocando a arte como algo muito subjetivo e sem importância. A questão da formação de público acaba sendo consequência disso, pois a educação, por considerar a arte algo superficial, não promove discussões nas escolas e não proporciona vivências artísticas reais para as crianças, futuras e futuros artistas, ou amantes da arte, que por não conhecê-la, caem no senso comum, tendo preconceito com os diferentes tipos de arte e o que ela pode oferecer. Tudo isso nos faz ter uma política de que a importância da arte para nossas vidas é menor, fazendo com que apenas quem consegue alguma fama, consiga subsídios para se sustentar através de sua arte.

Se você pudesse dar um conselho para crianças e jovens que pensam em seguir esta carreira, o que diria?
■ Eu digo que é difícil e maravilhoso ao mesmo tempo. É uma carreira de muitos altos e baixos, mas de extrema satisfação. Porém é preciso amá-la, pois o teatro seleciona, e só fica com aqueles que realmente o amam.
“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”
Nelson Rodrigues