Entrevista - Agostinho Esaú de Carvalho Faria Filho

Entrevista - Agostinho Esaú de Carvalho Faria Filho

Tive muitos momentos marcantes, tanto de felicidade de poder dar uma notícia muito boa para o paciente, em relação ao tratamento oncológico, que a resposta ao tratamento tinha sido maravilhosa, o que a gente tinha conseguido vencer a doença de fato
Tive muitos momentos marcantes, tanto de felicidade de poder dar uma notícia muito boa para o paciente, em relação ao tratamento oncológico, que a resposta ao tratamento tinha sido maravilhosa, o que a gente tinha conseguido vencer a doença de fato

RAIO-X
Nome:
Agostinho Esaú de Carvalho Faria Filho
Idade: 45 anos
Formação: Medicina pela Univás em Pouso Alegre MG, especialização em ortopedia pela PUC Campinas, Residência em Ortopedia Oncológica na PUC Campinas, Unicamp e Boldrini; Especialização em acupuntura médica

A medicina me mostra a cada dia que a relação entre as pessoas ainda é o mais importante”

Médico plantonista pela rede pública de Valinhos há 11 anos, Dr. Agostinho Carvalho sai de casa às 5h da manhã toda segunda-feira para assumir o plantão de ortopedia na UPA de Valinhos às 7h, onde permanece por 24h. Na semana em que o país comemora o Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, Agostinho fala sobre a paixão pela medicina e relata os principais desafios da profissão.

Quando decidiu que seria médico?
Então eu tive uma trajetória de decisão de fazer medicina um pouco diferente do usual. Em geral o aluno sai do Ensino Médio já pensando em fazer medicina, entre no cursinho e vestibular e aquela coisa e já seguimento nessa área. Eu na verdade como sempre gostei de desenhar e sempre gostei da área de artes, eu acabei iniciando uma trajetória universitária fazendo arquitetura. Cursei por cerca de 1 ano se não me engano, ai percebi que tinha muito exatas e eu não gostava muito e acabei migrando, na mesma universidade que era no Mackenzie em São Paulo para o curso de Publicidade. Esse curso eu fiquei um tempo maior, quase terminei e trabalhava na área. Fui para a área de rádio e televisão. Eu gostava do que fazia, mas parecia que ainda tinha um vazio a ser preenchido. Depois de um tempo, eu morava em São Paulo, aquela loucura de vida, minha família muita gente é da área da Saúde e eu acabei voltando para a casa dos meus pais, para Pirassununga, com o propósito de realmente fazer medicina. De fazer um cursinho e ingressar nessa nova carreira, demorou 1 ano e meio, e entrei na faculdade.
 

O que te motivou a tomar essa decisão?
Então, como eu disse, eu já tinha passado por outras universidades, já tinha trabalhado, então isso foi florescer pra mim, essa vontade de fazer medicina, embora eu tivesse de ajudar as pessoas de alguma forma, mas como médico diretamente, quando eu percebi que fui para as outras faculdades e me sentia um pouco vazio nas áreas de atuação que eu estava. Eu queria fazer alguma coisa pelas pessoas, mas de maneira mais direta. Foi esse um dos motivos.

Como foi o caminho entre a decisão e sua formação?
Hoje a gente vê uma disseminação de universidades, faculdades com curso básico de medicina e algumas que a gente sabe que não tem condição de atender essa demanda, porque o aluno de medicina na sua formação, ele precisa ter contato com pacientes, no hospital de referência, que ele aprenda realmente a olhar, observar o paciente, sua queixa, saber colher uma história, examinar fisicamente o paciente e tratar o paciente com humanidade que é uma coisa que toda pessoa deveria ter, independentemente de ser médico, esse olhar humano, do próximo, de querer o bem do próximo, e isso obviamente que em um aluno de medicina é exercitado ao extremo, mas a gente percebe hoje que tem faculdade que nem hospital tem. Não tem hospital vinculado a universidade ou a faculdade. Então muitas vezes o aluno sai com esse déficit e acaba entrando na faculdade muitas vezes motivado por algo que não é a realidade do médico, no Brasil pelo menos. Esse símbolo de status, de ganhar dinheiro, de ter uma condição financeira muito diferenciada. Não vou dizer que o médico não ganha bem. Até ganha. A gente trabalha muito, mas a gente obviamente ganha bem, consegue se sustentar, não são rios de dinheiro. Eu to falando isso porque o dinheiro não pode ser nunca o motivador para você entrar numa carreira dessas que você tem que ter um olhar humano, um toque humano, você não pode pensar nisso e a gente tem que se desdobrar em relação a horário, família, abrir mão de muita coisa e o dinheiro nunca pode ser o motivo principal de você escolher ingressar numa carreira dessas, porque seria o começo do fracasso. Tudo que é material fica aqui, então a gente tem que ter um olhar mais espiritualizado, de ajuda humanitária mesmo, de poder melhorar a condição do paciente, poder tirar a dor, buscar um diagnóstico, um tratamento eficiente e esse tipo de coisa não é compatível com somente a importância financeira. Isso tem que ser o de menos. Então o aluno de medicina de antigamente tinha um pouco mais desse ideal no coração e hoje parece que acabou banalizando até pelo grande número de faculdades e cursos de medicina que foram aprovados recentemente sem ter a condição de jogar o aluno em campo para aprender com o paciente, junto, desenvolver, despertar esse sentimento de poder ajudar, de querer ajudar alguém assim diretamente dessa forma em relação a saúde que é um momento onde a pessoa está mais fragilizada.

Atende na rede pública há quantos anos? Fale sobre sua rotina de atendimento.
Atendo tanto em clínicas particular quanto o SUS. Em Valinhos sou servidor público. Eu gosto demais de fazer parte de toda essa equipe de Valinhos. É uma cidade maravilhosa, que mesmo estando presente em poucas horas da semana, fico em Valinhos no plantão de segunda-feira na ortopedia, na UPA, em que faço 24 horas, saio da minha cidade as 5h da manhã e fico no plantão as 24 horas seguidas da segunda-feira. Faço uma viagem de 1h45. Faço isso há dez anos com prazer. Foi o único vinculo que eu mantive na RMC, único vinculo que eu mantive foi na Prefeitura Municipal de Valinhos porque foi uma cidade que me abraçou e onde eu vi que a Saúde embora a gente saiba que no Brasil exista ainda um déficit, na qualidade, pela falta até de recurso financeiro que vem da União na geral, mas vejo que em Valinhos existe uma tentativa com sucesso de manter a qualidade do serviço vem próximo do que a gente se depara nos convênios particulares. É um dos únicos serviços que eu já trabalhei que a falta de material tanto humano quanto insumos para o profissional conseguir fazer o básico da Saúde e não ficar numa situação ruim tanto com o paciente quanto consigo mesmo pensando que poderia ter feito mais. E em muitos lugares a gente passa por situações assim, angustiante. E em Valinhos não. Em Valinhos eu trabalho há dez anos e graças a Deus a equipe médica, a equipe de enfermagem, o olhar da Prefeitura para com a Saúde, tudo permite que possamos exercer a medicina de forma digna.
 

Quais os principais desafios da profissão?

Na minha área que eu faço a parte de oncologia, os desafios ainda são enormes, no sentido de que o câncer, as lesões malignas, a medicina por mais que tenha avançado e eu vejo realmente que hoje o tratamento é muito mais eficiente do que há 30, 40 anos. A eficiência de tratamento chega a 80%, em muitos casos em 100%. Depende do momento que o paciente chega pra gente, a facilidade ou não do acesso aos exames e ao protocolo de tratamento de cada tumor, de cada câncer, mas se ele consegue e hoje a gente vê que consegue com maior facilidade, tanto no SUS quanto no convenio, a gente vê que tem melhorado, mas não deixa de ser uma patologia altamente desafiadora em que a gente perde muito paciente, infelizmente. Na minha área o principal desafio que eu poderia pontuar é realmente o vínculo que a gente vai criando com o paciente e algum momento ele nos deixa. É claro que com o tempo a gente aprende a interpretar essa partida do paciente porque sabemos que todo mundo vai embora. A única certeza que a gente tem é que um dia não estaremos aqui. Mas esse vínculo ainda é um desafio, para todo médico, para todo profissional da área de saúde ainda é um desafio. E na oncologia isso deixa a gente muitas vezes abalado. Mas eu adoro a área que eu escolhi e com o tempo a gente vai desenvolvendo a característica de tentar levar um pouco de paz para as pessoas.

Qual foi o momento mais marcante de sua carreira na medicina? 
Tive muitos momentos marcantes, tanto de felicidade de poder dar uma notícia muito boa para o paciente, em relação ao tratamento oncológico, que a resposta ao tratamento tinha sido maravilhosa, o que a gente tinha conseguido vencer a doença de fato. Então ver aquele choro de alegria, quando o paciente nos abraça naquela euforia e esses momentos marcam. E também tive momentos de tristeza, de perder pacientes, principalmente nos tumores em crianças, adolescentes, que ainda a gente percebe que tem uma força vital, uma vontade de viver muito grande e muitas vezes a doença acaba levando o paciente.

Em Valinhos, você já foi elogiado diversas vezes pela forma cordial e atenciosa que trata os pacientes. Para você o que representa receber esse tipo de feedback?
Fico extremamente lisonjeado. Não tem sentimento melhor do que ver o paciente grato, agradecido. Nenhum dinheiro no mundo paga esse tipo de sentimento que o paciente transmite pra gente de agradecimento.  estamos num estado de fragilidade,

O que a medicina representa para você?
A medicina representa não só pra mim, mas para todas as pessoas, um meio de aproximar os seres humanos. Que embora a gente veja um desenvolvimento tecnológico muito grande, em termos de informática, robótica, tudo isso é muito importante realmente, mas a medicina mostra para mim a cada dia que a relação entre as pessoas ainda é o mais importante. A gente precisa manter, cultivar, o olhar com amor, o ouvir, poder transmitir alguma mensagem de paz. A medicina e a saúde de maneira geral tem essa capacidade de promover o bem e de mudar a realidade das pessoas.