Chefe de Enfermagem da Santa Casa, fala em nome daqueles que que estão na frente de batalha

Chefe de Enfermagem da Santa Casa, fala em nome daqueles que que estão na frente de batalha

Elias de Souza Maciel, Chefe de enfermagem da Santa Casa de Valinhos
Elias de Souza Maciel, Chefe de enfermagem da Santa Casa de Valinhos

RAIO-X
Nome completo: Elias de Souza Maciel
Chefe de enfermagem da Santa Casa de Valinhos
Idade: 43
Formação: Enfermeiro
Pai de um menino de 10 anos

“Temos a sensação de que estamos em guerra e vários são os colegas de profissão que perdi nesta luta”

O Dia da Enfermagem é celebrado anualmente em 12 de maio. Mas, este ano, a data ganhou um significado ainda maior: são eles os guerreiros da linha de frente no combate ao coronavírus.
De acordo com dados divulgados na última quarta-feira, dia 6, pelo Comitê Gestor de Crise do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), 76 enfermeiros e profissionais de enfermagem morreram até o momento no Brasil em decorrência de complicações da Covid-19.

Para falar sobre o tema, convidamos o chefe de enfermagem da Santa Casa de Valinhos. Elias de Souza Maciel atua na área há 23 anos e é responsável pela supervisão de aproximadamente 400 pessoas. “Nossa missão é trabalhar focado na prevenção e proteção dos profissionais de saúde independente da área de atuação, todos estão expostos a riscos”, afirma Elias.

Quais as principais atribuições de sua função?
Atuo na gestão de processos, proporcionando as lideranças e colaboradores apoio técnico, científico e assistencial, alinhando às práticas de segurança do paciente à eficiência operacional da instituição.

O que você tem como sua missão pessoal na execução deste trabalho?
Alinhar processos, desenvolver e qualificar pessoas, desenvolver líderes, identificando talentos internos e conectando conhecimentos.

Quais são seus principais valores na vida profissional?
Respeito aos liderados, valorização das equipes multiprofissionais, ética, humanização e equidade assistencial.

Como é estar na linha de frente no combate ao coronavírus? Sua família fica apreensiva?
Com certeza, a família está o tempo todo apreensiva. Porém, é meu filho de dez anos a minha maior preocupação e ele comigo. Porém, o desafio e a vontade de vencer a pandemia é maior que o medo, e impulsiona a nossa vontade de lutar.

Você sente medo de ser contaminado ou de ser seus colegas de trabalho sofrerem com a doença?
Sigo as recomendações de prevenção, que é basicamente utilizar máscaras e lavar as mãos constantemente. Mas, tenho preocupação com os colegas de trabalho. Muitos deles têm convívio com pessoas idosas ou com alguma comorbidade, então a preocupação neste sentido é maior.

Como é essa sensação?
Temos a sensação de que estamos em guerra e que esconder não resolve, temos que avançar para superar as próprias barreiras, e gerar energia positiva a quem está ao nosso lado.

Já perdeu algum amigo/conhecido da área da Saúde em decorrência do coronavírus?
Sim, vários são os colegas de profissão que perdi nesta luta. É uma tristeza saber da notícia e saber que foi inevitável, pois eles não suportaram o agravamento da doença. Porém, amigo pessoal ainda não.

Durante seus anos de profissão, já enfrentou algo parecido?
Não desta dimensão e apreensão. O H1N1 foi a mais forte já enfrentada, a dengue é ainda devastadora, mas não há uma preocupação maciça sobre.

Na última semana, profissionais de enfermagem foram agredidos durante um protesto em Brasília. Qual foi a sensação que você teve ao saber desta notícia?
As agressões de Brasília muito me entristecem, pois é um ataque ao ser humano, que luta para o bem maior da humanidade: a saúde. Porém, não me causou espanto. Lutamos diariamente com este tipo de agressão. Infelizmente é mais um fato, e mais um ato impune no Brasil. As medidas são brandas para com estes ofensores.

No dia 12 o país celebra o Dia da Enfermagem. Você acredita que os profissionais de saúde passaram a ser mais valorizados devido ao trabalho realizado durante a pandemia?
Acredito que o mundo passará a "ressignificar os olhares sobre os profissionais de saúde" em todas as classes. Assim esperamos...

O que esta data representa para sua classe de profissionais?
Celebração dos que abriram os nossos caminhos de hoje. Eu comemoro os meus antecessores, a luta deles é o meu presente, eles me presentearam com conquistas, construção de direitos e liberdade de profissão. Além de toda a história da Saúde e sua construção, eu fui o maior privilegiado, pois na minha formação só passaram as melhores pessoas, os melhores seres humanos e cada um em cada momento me acrescentou conhecimento e energia positiva. É meu dever passar adiante todo meu conhecimento.

Entre os casos de pacientes contaminados por COVD-19 com que teve contato, qual foi o que mais te marcou?
O caso de uma gestante, e casos de profissionais colegas de profissão.

Com frequência, o Cofen realiza campanhas contra a agressão a profissionais de enfermagem. Algum dos enfermeiros/técnicos já foram agredidos durante o seu plantão?
Sim. E não dá para mensurar qual dor é maior a que você é ofendido, ou a que você tem que intermediar e abrandar as consequências. Atualmente, o Cofen tem canal aberto via site, além de campanha via web, e telefone para divulgação e acolhimento neste sentido.

Acredita que diante deste cenário, haverá mudança no comportamento das pessoas em relação aos profissionais de saúde?
A minha vontade é que sim, mas não sei se a humanidade terá está reflexão, talvez algo muito maior tenha que ocorrer.

Recentemente, pessoas começaram a aplaudir os profissionais de saúde como forma de agradecer o empenho durante a pandemia. O que este ato representa para a sua classe?
Eu sou grato a todo tipo de apoio, e neste momento está ocorrendo um movimento de união e apoio da sociedade em prol da Saúde, desde um simples gesto a grandes movimentos de doações, pessoas que já despertaram o novo olhar.
Recentemente, profissionais de saúde pelo mundo começaram a divulgar fotos pedindo para que as pessoas permaneçam em casa. Qual a importância do isolamento social neste momento?
O Isolamento diminui o poder de contágio do vírus e com isso ganhamos tempo de tratamento e aquisição de itens que proporcionam saúde aos doentes  e segurança aos trabalhadores da Saúde.

Quais os principais desafios no dia a dia de um líder de assistência?
Equilíbrio emocional, para contribuir com ações de prevenção e proteção das equipes.

Se pudesse fazer um pedido aos valinhenses neste momento, o que pediria?
Um olhar direcionado a assistência à saúde, o fundo cívico precisa da sua ajuda, saúde é o bem maior da humanidade.
Em homenagem ao Dia da Enfermagem, deixe uma mensagem para os seus colegas de trabalho.
A Vitória está por vir, a luta é agora, dê o seu melhor não espere reconhecimento. Dê a sua contribuição, o retorno você terá no seu interior, só você pode contribuir para a vitória coletiva. Deus está conosco.


Elias e seu filho 

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