Amazônia perdeu área equivalente ao dobro da cidade de São Paulo no 1º semestre

Amazônia perdeu área equivalente ao dobro da cidade de São Paulo no 1º semestre

De 1º de janeiro a 30 de junho deste ano, o Brasil perdeu 3.070 quilômetros quadrados de floresta amazônica, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados nesta sexta-feira (10). A área perdida equivale a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo. O total representa 26% a mais do que o mesmo período do ano passado. Os números referem-se aos 11.822 alertas de desmatamento nos primeiros seis meses do ano. Somente em junho deste ano, foram desmatados 1.034 km2, uma área 11% superior a junho de 2019.

Esse é o segundo ano consecutivo de aumento do desmatamento desde a posse de Jair Bolsonaro. “Mesmo que não se queime nenhum metro quadrado na atual temporada de fogo que vai até setembro – como espera o vice-presidente da República Hamilton Mourão ao propor novamente a moratória das queimadas na Amazônia Legal este ano –, o maior estrago já foi feito”, diz o diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil, Edegar Rosa.“O fato é que uma imensa parcela da floresta amazônica já está no chão”.

O desmatamento ocorreu em toda a Amazônia Legal, mas, conforme o Congresso em Foco mostrou, foi pior no Pará (1.212 km2), Mato Grosso (715 km2) e Amazonas (539 km2). Os municípios campeões do desmatamento foram os paraenses Altamira (351 km2) e São Félix do Xingu (201 Km2), seguidos por Apuí (155 Km2), no sul do Amazonas.

“Os alertas do Inpe foram registrados em propriedades privadas e terras públicas, mas o espantoso é que o desmatamento também ocorreu em Unidades de Conservação, nas quais deveria haver mais controle e rigor”, diz a gerente do WWF-Brasil para Ciências, Mariana Napolitano.

As unidades de conservação mais desmatadas foram a Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim e a de Altamira, e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, todas no Pará. O Inpe já vinha indicando alta de desmatamento nessas áreas. Mesmo assim, a fiscalização não chegou a tempo de evitar o desmate.

Nesta sexta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu representantes do setor empresarial e entidades setoriais para discutir questões voltados à proteção, preservação e desenvolvimento econômico-sustentável da Amazônia. A agenda ocorreu em resposta à carta "Comunicado do Setor Empresarial Brasileiro" encaminhada a Mourão, também presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CANL), na última segunda-feira (6).

Durante a videoconferência, 12 interlocutores de entidades integrantes do Conselho Empresarial Brasil para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) detalharam os sete eixos apontados na carta como prioritários para o setor. Dentre os temas, estão o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia e demais biomas; inclusão social e econômica de comunidades locais; financiamentos e investimentos para uma economia circular e de baixo carbono; valorização e preservação da biodiversidade; e recuperação econômica dos efeitos da pandemia.

Queimadas

Mourão anunciou na última quinta-feira (9) que as conversas com a Noruega e a Alemanha, os dois grandes doadores do Fundo Amazônia, foram reiniciadas. A retomada de investimentos está ligada à resposta do governo brasileiro em relação às queimadas, disse Mourão.

“Uma vez que a gente consiga apresentar dados consistentes, os recursos que estão lá serão novamente reabertos para os projetos relacionados ao desenvolvimento, proteção e preservação da Amazônia”, afirmou. Segundo ele, não há prazo para essa retomada de investimentos.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou também na quinta-feira (9) uma moratória das queimadas na Amazônia para deter ilegalidades. Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro assinará até a próxima semana um decreto para suspender o fogo por 120 dias em todos os biomas. Na Amazônia e no Pantanal não haverá exceção. Nos demais biomas, as queimadas serão permitidas de forma controlada.

Salles vem sofrendo pressão por parte dos ambientalistas desde a reunião ministerial de 22 de abril, em que disse para o governo aproveitar que a mídia está de olho na pandemia para "passar a boiada"."A oportunidade que nós temos, que a imprensa não está, está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação, todas as reformas”, argumentou na época.

Representantes da sociedade civil  ligados à defesa do meio ambiente encaminharam à Câmara dos Deputados no mês passado um pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro alegando crime de responsabilidade socioambiental. (Veja a íntegra aqui).