Mães na quarentena: a arte de não enlouquecer

Mães na quarentena: a arte de não enlouquecer

Após enfrentar dias pesados de batalha interna quanto à necessidade de dar conta de tudo, Karime Ribeiro decidiu mudar a forma de encarar as coisas
Habitualmente, em datas comemorativas, o jornalismo narra histórias de superação. Histórias de personagens que inspiram pessoas, que lideram ou que – de alguma forma - já realizaram ações reconhecidamente relevantes para a sociedade. O Dia das Mães costuma ser uma data onde encontrar personagens é uma tarefa consideravelmente simples. Afinal, ser mãe é, por si só, uma missão inspiradora.

Este ano, devido a pandemia de coronavírus, a busca foi ainda mais fácil. Se você é mãe, você sabe porquê. Se você não é, vai saber agora: porque ser mãe na quarentena é – sem nenhum romantismo - uma missão quase impossível, e toda rotina de uma mãe de quarentena é uma história de superação.

Home office associado a aulas suspensas, diaristas dispensadas, e para as casadas: maridos dentro de casa praticamente em tempo integral. Esse foi só o começo. Afinal, quando a rotina parecia já enlouquecer, surgiram as aulas via internet, ou “homeschooling”.  E ai da mãe que não der conta de - além de cozinheira, faxineira, profissional (porque para as que trabalham, o home office também segue a todo vapor), lavadeira, companheira, babá – ser também professora.

Fato é que, na maioria dos casos, o que incomoda não é a cobrança que vem de fora. Afinal, mães sabem dar ordens quando precisam. E desafiá-las ou cobrá-las é, muitas vezes, um risco gravíssimo.

O que faz da rotina destas mulheres verdadeiras batalhas diárias é a cobrança interna. Mãe não gosta de não dar conta. Mães querem que todos façam o que é preciso, sem que ela precise dar ordens. Mães querem a casa limpa e arrumada, a comida na mesa, as lições de casa feitas, as roupas lavadas, os prazos de trabalho cumpridos.

Aos 35 anos, Karime Ribeiro é mãe de dois. Talles de 16 anos e Maria Luna de 6. Após enfrentar dias pesados de batalha interna quanto à necessidade de dar conta de tudo, ela decidiu mudar a forma de encarar as coisas. “Durante a quarentena, minha regra agora é viver um dia de cada vez. Eu adoeci nos primeiros dias e, após ver uma amiga ser internada por causa do stress, eu decidi que não vale a pena. O momento é muito difícil para todos, mas é preciso buscar leveza de alguma forma para que a gente não enlouqueça”, afirma.

Karime conta que tentou inicialmente seguir regras de rotina, mas decidiu flexibiliza-las com o passar dos dias. “Nós vemos dicas o tempo todo, sobre como manter tudo em ordem, como organizar as agendas, como dar conta das tarefas escolares, fazer exercícios, cuidar das crianças junto com o home office, e etc. São ótimas de fato, e tenho certeza que algumas mães conseguem cumprir, mas não é o meu caso. Acho que o segrego está justamente em admitir (ou gritar pro mundo ouvir): eu não dou conta. E tudo bem. Temos que nos respeitar. Temos que respeitar os nossos limites e entender que a nossa saúde mental (que sofre alterações muitas vezes silenciosas) é mais importante. Essa pressão que nós colocamos na gente, de buscar perfeição, pode nos levar a um caminho sem volta e, simplesmente, não vale a pena”.

Hoje, Karime aproveita o tempo com os filhos da melhor forma possível. “Eu cumpro minhas obrigações de trabalho, não deixo as crianças com fome e ajudo nas tarefas escolares o quanto consigo. E fim. Todos ajudam dentro de casa e fazemos as coisas sem ritmo pré-estabelecido. Cada dia é um dia”.

Sobre a meta de Dia das Mães, ela responde: “Eu quero me respeitar cada dia mais. Tenho feito terapia online toda semana e isso tem ajudado muito. Eu não quero ser perfeita, nem que tudo em casa esteja perfeito. Eu quero fazer o que dou conta e aproveitar cada minuto com prazer. Esse é o caminho que eu encontrei e pretendo segui-lo”, finaliza. 

Psicóloga dá dicas para mães durante a quarentena
A psicóloga Maria Fernanda Cyrino (CRP 06/84227) reforça que é preciso parar um pouco e se conscientizar de que uma pessoa não consegue fazer 100% todas as atividades que se propõe ao mesmo tempo, no mesmo ambiente. “Mudou a dinâmica de trabalho, os estudos das crianças também e a rede de apoio (avós e outros) não podem mais participar desta mudança. Houve perdas e ganhos! Através da minha experiência nesses tempos com orientações e escuta dos pais, colecionei algumas dicas, lembrando que sempre é importante conhecer seu funcionamento”, afirma Maria Fernanda.

Veja as dicas: 

1) Converse com seus filhos sobre como está se sentindo com a mudança e escute como eles estão, sem julgamento. Mostrar suas tristezas e dificuldades pode ajudá-los a expressar esses sentimentos que podem também estar escondidos.

2) Priorize o que é de suma importância: sua saúde mental.

3) Lembrem que seus filhos vão recuperar o déficit escolar, a casa vai continuar tendo que ser cuidada, seu trabalho continuará lhe exigindo.

4) Tire a culpa da mochila e reconheça tudo o que faz sendo generosa consigo. Escrever essas qualidades pode lhe ajudar acolher a mãe que é.

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