No dia da Consciência Negra quatro negros falam sobre a luta contra o racismo

No dia da Consciência Negra quatro negros falam sobre a luta contra o racismo

Para eles o racismo aparece na vida do negro de diversas formas, muitas delas disfarçadas.

Para marcar o Dia da Consciência Negra, celebrado neste sábado, dia 20, a Folha de Valinhos conversou com quatro negros, membros da comunidade valinhense, ativistas e defensores dos direitos humanos, para saber o que pensam a respeitos das questões raciais e de diversidade que ganharam forma e força nestes últimos anos.

Para eles o racismo aparece na vida do negro de diversas formas, muitas delas disfarçadas. Os quatro acreditam e defendem que, apenas com políticas públicas voltadas para a equidade social é que irá pôr fim ao preconceito e ao racismo estrutural.

Quando o assunto é tratado dentro da esfera local, o sentimento é o mesmo, sendo que alguns deles já sofreram racismo em Valinhos.

Foram entrevistados o jovem Josué Roupinha, professor universitário, ativista e um dos organizadores da Marcha Zumbi dos Palmares que acontece hoje, dia 20, em Valinhos. A professora Laís Helena Antônio dos Santos, primeira mulher negra a ser eleita vereadora em Valinhos, ex-membro do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e vice-prefeita na gestão (2017-2020), Oswaldo Reiner, 86 anos, presidente da Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos e a professora Solange Elizabeth Pereira da Silva, organizadora do livro “Educação Antirracista: Infâncias, Resistência e Combate ao racismo”, que teve pré lançamento na Câmara Municipal no dia 5 de novembro.

Confira  o que pensa cada um deles: 

Professor Josué Roupinha

Folha de Valinhos  Na sua opinião porque as questões raciais e de diversidade ficaram mais evidenciadas neste momento?

Acredito que, na verdade, as questões raciais e de diversidade sempre mantiveram a sua militância ali, firme e forte. A diferença é que desde 2016, principalmente, a questão dos Direitos Humanos passou a ser questionada e reduzida a um discurso de esvaziamento por parte de setores conservadores. E nós, enquanto militantes de causas justas (de justiça mesmo!), tivemos que reagir aos desmontes vividos de lá pra cá. Afinal, o racismo, a LGBTQIA+fobia, o machismo, a xenofobia e tantas outras formas de violência sempre existiram. Porém, com essa “reação” que eu citei acima, os canais de comunicação passaram a trazer essa pauta mais pra perto. Mas ainda há muito a ser feito, afinal enquanto tivermos pessoas sendo mortas por sua orientação sexual ou cor da pele, essas questões continuarão em evidência.

Folha de Valinhos Você já sofreu algum ato de racismo em Valinhos?

O racismo aparece na vida de uma pessoa negra de inúmeras formas. Dentre as diversas situações que já vivi, desde questões sobre o meu cabelo, religião que sigo e etc., um episódio que me marcou muito foi quando eu trabalhava em uma determinada empresa, na qual eu tinha uma posição de gerência. E um dia chegou uma cliente para falar com o “gerente”, que no caso era eu. Quando ela me viu, ela disse que não queria ser atendida por pessoas “desse jeito” e que se não houvesse outro gerente, ela voltaria para ser atendida pelo dono da empresa. Aquilo me marcou muito, pois no momento em que você vive o racismo diretamente, você se sente impotente, sem saber o que falar ou responder… Mas me mantive firme e de cabeça erguida. Com o passar do tempo, a militância me ajudou no empoderamento que tenho hoje para responder a situações como essas e não deixar impune.

Além disso, o racismo estrutural, por exemplo, atinge a mim de maneira direta quando vejo jovens negros sendo mortos apenas e tão somente por serem negros; atinge a mim quando uma loja instala um sistema de segurança para “vigiar” pessoas negras que adentram ao local; atinge a mim quando, no mercado de trabalho, o salário de uma pessoa negra é menor do que de uma pessoa branca, mesmo ela ocupando o mesmo cargo e tendo a mesma formação (os dados do IBGE e de diversos outros estudos estão aí para provar, inclusive! Não é algo que falo da boca pra fora); atinge a mim, que sou de religião de matriz africana, quando vejo terreiros sendo queimados por intolerância religiosa. E por aí vai. O racismo pode nos atingir de forma estrutural, direta ou indiretamente. Ambas as formas são violentas.

Folha de Valinhos  O que é preciso fazer para por fim a questões de racismo em nossa cidade? Como cada indivíduo - branco ou negro - pode contribuir?

Além das políticas públicas que visam equidade social (e isso é muito importante, pois é preciso deixar claro que não queremos, enquanto negros e negras, termos mais “privilégios” do que as pessoas brancas, mas sim viver em pé de equidade para batalharmos por nossos objetivos, sejam eles espirituais, profissionais, educacionais e pessoais), é necessária a aplicação efetiva delas. Por exemplo: temos a Lei 10.639, que é uma conquista do povo preto, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira" dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio. E essa lei aqui em Valinhos (SP), por exemplo, assim como em vários municípios, não é aplicada da forma correta (quando é aplicada, diga-se de passagem!). E isso passa pela boa vontade do Poder Público, das Prefeituras e da necessidade de formação continuada aos professores. Digo isso porque a Educação - e o acesso a ela - é um dos pilares básicos que podem reduzir o racismo. 

Além disso, para pôr fim ao racismo, é necessário não apenas ‘não ser racista. É necessário sem antirracista’. E ser antirracista e estar na luta do povo negro não só no mês de Novembro, mas todos os dias do ano. É eleger pessoas negras para cargos públicos. É contratar pessoas negras no mercado de trabalho. É, novamente, ser antirracista é ser um agente ativo de oposição a toda e qualquer forma de racismo.

E aqui faço um convite à população de Valinhos: esteja presente na 1ª Marcha Zumbi dos Palmares em Valinhos, no dia 20/11/2021, a partir das 09h00, na Praça Zumbi dos Palmares no Bom Retiro II. Ser antirracista é lutar pelo fim do racismo, seja você branco, amarelo, pardo, negro... Somos diferentes, peles diferentes, mas somos seres humanos e temos que exigir os mesmos direitos e acessos.

Professora Solange Elizabeth Pereira da Silva

Folha de Valinhos  Na sua opinião porque as questões raciais e de diversidade ficaram mais evidenciadas neste momento?

As questões raciais estão em evidência devido ao aumento dos casos de racismo.E devido ao movimento negro estar trabalhando a importância das denúncias e da necessidade urgente da sociedade se posicionar em relação as desvantagens históricas que a população negra tem sofrido desde a abolição da escravatura.

Folha de Valinhos Você já sofreu algum ato de racismo em Valinhos?

Sim , infelizmente o município de Valinhos assim como outros municípios por não ter uma política antirracista contribui para que nós negros residentes não tenhamos representatividade nos espaços ou que contribui para o processo de estranhamento social e consequentemente vários atos de preconceito e discriminação.

Folha de Valinhos  O que é preciso fazer para por fim a questões de racismo em nossa cidade? Como cada indivíduo - branco ou negro - pode contribuir?

Para que possamos avançar na pauta racial o município precisa ter um órgão capaz de criar políticas públicas que garanta a equidade da população negra na sociedade. A melhor forma de contribuir é cada cidadão compreender a importância do debate sobre diversidade e principalmente buscar formas de obter informações. Os poderes Executivo e Legislativo precisam criar mecanismos para que a população negra possa ser bem assistida nas diferentes áreas de direito social,  seja educação,  saúde,  segurança pública,  áreas que garantem o genocídio do povo negro.

Professora Laís Helena Antonio dos Santos Aloise

Folha de Valinhos  Na sua opinião porque as questões raciais e de diversidade ficaram mais evidenciadas nesse momento ?

Com a chegada da pandemia as desigualdades sociais, o desrespeito e a crueldade ficaram mais evidentes, a exemplo das diferenças de acesso a atendimento médico entre ricos e pobres, brancos e negros. A pandemia deixou isso mais patente. As pessoas resolveram trazer.

Importante ressaltar que de acordo com o Art. XXV da Declaração Universal Dos Direitos Humanos “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.”

Folha de Valinhos  Você já sofreu algum tipo de racismo em Valinhos ?

Tenho histórico diferenciado em nossa querida Valinhos, o que faz sentir-me inserida em todos os setores da sociedade Valinhense, até o presente. Venho de uma família centenária de Valinhos, meu avô paterno chegou aqui com a família  em 1897. Nossa convivência com os imigrantes italianos e todos que aqui residiam, sempre foi muito grande. Eu era a única menina preta na sala de aula nada percebia, quanto a racismo. Fui premiada por dentição perfeita, no terceiro ano do Grupo Escolar Prof. Antonio Alves Aranha e no quarto ano como a melhor aluna, recebendo caderneta de poupança de quinhentos cruzeiros e uma flâmula. Tornei-me adolescente, adulta e mulher, sempre muito respeitada por todos.

Lecionei de norte a sul, de leste a oeste de Valinhos para incontáveis alunos, fase marcante de minha contribuição, na educação. No início da minha carreira, meu acesso a determinadas escolas era de charrete, lenço na cabeça ou carona. Segui a vida estudando, chegando ao Mestrado em linguística e MBA em Gestão Pública e Administração de Cidades.

Valinhos me fez vereadora por três legislaturas, sendo a primeira mulher eleita após 35 anos de emancipação política de nosso Município. Na quarta vez tornei-me primeira suplente com 1028 votos, assumindo a cadeira de vereador por um mês a pedido do ex-vereador Paulo Montero. Valinhos tornou-me a primeira mulher a ocupar cadeira no Executivo como Vice-Prefeita, após 68 anos de emancipação política do nosso Município, e a primeira a ocupar cadeira como Prefeita, por duas ocasiões, com registros em Ata. Sem perda da minha  identidade, gratidão plena ao meu berço natal, Valinhos, onde viveram meus avós, meus pais, onde vivo com minha família e vivem meus familiares! Se houve racismo, foi sempre de forma velada.

Folha de Valinhos  O que é preciso fazer para por fim a questão racismo em nossa cidade? Como indivíduo branco ou negro pode contribuir?

Falar em racismo ainda é um tabu, para uma grande parcela da sociedade.  Na verdade as pessoas desconhecem conceitos e não se atentam para o problema, reproduzindo, enquanto instituições ou individualmente ações discriminatórias, como por exemplo contratação de pessoas com boa aparência, entre outros. Em que pese o desconhecimento os números não mentem e trazem à tona a necessidade de medidas em prol da igualdade racial.

As estatísticas em nosso Brasil afora, são assustadoras. Em pleno século XXI o que acontece com a maioria dos jovens e mulheres pretos. é inconcebível, inaceitável. Onde houver racismo em nossa cidade, se a pessoa prejudicada não vier a público, naquele momento expor o problema, jamais será conhecido, para medidas cabíveis, como por exemplo o caso do entregador de pizzas, que teve repercussão nacional. O racismo, na maioria das vezes é velado, porém perceptível, por aquele que o sofre. Uma das principais ferramentas contra a discriminação racial é a informação. Pessoas pretas e não pretas bem informadas podem tornar-se grandes aliadas no combate ao racismo. Como exemplo, verifica-se que empresas mais conscientes melhoram sua tomada de decisão, seja de contratação ou desenvolvimento de talentos.

Assim deveria ser em todos os setores, sobretudo na educação, com a inclusão da história da cultura afro brasileira e indígena nos currículos da Educação básica e superior brasileira, isso se aplica a Valinhos, enfim a todas as cidades, como um momento histórico marcante de grande importância, com fortes repercussões pedagógicas na formação dos professores, o que ampliará o foco dos currículos escolares, para a diversidade cultural, racial, social e econômica.

Educar cada cidadão de forma igualitária, para atuar no seio da sociedade multicultural e pluriétnica, é contribuir no contínuo processo da democracia. Por fim, para que isso aconteça basta o cumprimento da Lei 10.639/2003 que dispõe sobre a inclusão de história afro-brasileira e africana no currículo de educação básica. É uma questão histórica que deve ser conhecida a fundo, por indivíduo preto ou branco, a fim de que possam dar sua contribuição através de informações não distorcidas, a exemplo da história que nos mostraram nos livros didáticos.

Sr. Osvaldo Reiner

Folha de Valinhos  Na sua opinião porque as questões raciais e de diversidade ficaram mais evidenciadas nesse momento ?

Acontece um fato bem marcante com o decorrer da convivência humana quer queira ou não, chama-se conhecimento que em consequência traz análise e maior compreensão de entendimento, então, eis,  porque estamos presenciando tais mudanças no comportamento, com grande participação quer dos grupos ofendidos, bem como, também, solidariedade e integração de elementos dos grupos agressores. Esta convivência leva a uma condição de arrefecimento das intolerância. Acompanhando os acontecimentos vemos pelos mundo, protestos contra o racismo, não somente, negros, mais brancos, também, tanto acontece nos EE,UU,  quanto na Europa.   

Folha de Valinhos  Você já sofreu algum tipo de racismo em Valinhos ?               

Quando para cá mudei, logicamente, que sofri, porém, velado, tendo em vista que fui morar num bairro da periferia e comprei uma casa de desta que causou estranheza aos moradores, sendo que esse fato foi a mim relatado, no decorrer da convivência, por um amigo branco.

Folha de Valinhos  O que é preciso fazer para pôr fim a questão racismo em nossa cidade? Como indivíduo branco ou negro pode contribuir?                      

Acontece que o racismo não está só preso a questão racial, está, também, circunscrito, a situação sócio-economico e cultural, portanto, dentro de minha ótica, sempre irá acontecer, principalmente, quanto a situação econômica. Com relação aos seres humanos, na Bíblia, entendo que está a resposta, quando se lê: amar o próximo como a si mesmo.

 

+ Fotos: