As histórias por trás da história da Terra do Figo Roxo

As histórias por trás da história da Terra do Figo Roxo

Valinhos completou 124 anos na última quinta-feira, dia 28 de maio. A data celebra o dia de criação, em 28 de maio de 1896, do Distrito de Paz de Valinhos. A emancipação político-administrativa em relação a Campinas, ou seja, o nascimento de Valinhos como Município, só aconteceria décadas mais tarde, em 1953.

A história de Valinhos já foi contada muitas vezes. Os cenários e fatos que fizeram com que o município chegasse até este momento já foram narrados de diversas formas e de diferentes pontos de vista.
Mas você já parou para pensar quantas histórias existem dentro da história de Valinhos? Quantas trajetórias foram vividas nestas terras e quantas pessoas trabalharam – e ainda trabalham – para ajudar a construir e desenvolver a antiga Vila de Valinhos?

Uma destas histórias começa em 1948, quando Miguel Abib Kellesli e Ana Pedro Padiz Kellesli decidiram abrir um Armazém de Secos & Molhados no local onde hoje conhecemos como Rua Sete de Setembro. O comércio – que há 72 anos permanece no mesmo endereço – mudou de ramo no decorrer das décadas: comercializou brinquedos, tecidos, armarinhos, e se estabeleceu na cidade como a mais tradicional loja de moda masculina e feminina, e artigos de cama mesa e banho: a Casa São Jorge.

Com o passar dos anos, o comando da loja também mudou, mas nunca saiu das mãos da família. Miguel Abib Kellesli foi sucedido por seus filhos, Elias e Leonor Kellesli, e atualmente a gerência da loja é comandada pelo sobrinho de Elias, Cláudio Cortegoso Kellesli.

Em setembro de 1955, foi a vez de Nicolau Vinácio Parodi enxergar em Valinhos uma boa oportunidade de negócios e inaugurar na cidade um estúdio de fotografia e comércio de materiais fotográficos, empresa atualmente conhecida como Foto Parodi.

O filho de Nicolau - José Francisco Parodi (ou Chico Parodi, como é conhecido) faz parte da quarta geração da família a trabalhar com fotografia. Ele conta que, inicialmente, seu pai alugou duas salas comerciais no prédio Raimundo Bissoto, da família Bissoto, localizado na Rua Treze de Maio, quase em frente a Matriz São Sebastião. “Em 1966, mudamos definitivamente para o nº 147, onde estamos até hoje”, conta.

O trabalho da família Parodi com a fotografia foi iniciado no começo do século por Nicolau Parodi, com os conhecimentos adquiridos na Itália pelo fotógrafo do Vaticano Giuseppe Droghini. Em 1907, o primeiro estúdio da família foi instalado na cidade de Itatiba.

Chico conta que, de acordo com relatos de sua mãe, além de atuar como fotógrafo de evento social, Nicolau aproveitou o crescimento da cidade. “Impulsionado pelas três grandes empresas instaladas na mesma época em Valinhos (Gessy Lever, Rigesa e Clark), ele se tornou um profissional bastante requisitado. Isso possibilitou a expansão dos negócios nas atividades comerciais de cine/foto/som e relojoaria. Nicolau V. Parodi era um homem de vanguarda, sempre atento as tendências. Infelizmente, teve a sua vida interrompida aos 38 anos de idade”, afirma.

Visita do presidente João Goulart na década de 1969

Rua 7 de Setembro,na década de 1970

Os irmãos Luiz, Marcos e Chico Paródi em exposição fotográfica na Unicamp

Ao ver a empresa com mais de seis décadas de história, Chico reforça: “Quase todo santo dia, quando piso na empresa, lembro que aqui existe uma história que precisa ser cultuada e respeitada, afinal de contas vamos completar 65 anos. Nós eternizamos na memória fotográfica as nossas conquistas e a celebração da vida”.

Em 1959, cinco anos após a emancipação de Valinhos, o pai do então jovem Carlos Levreiro decidiu comprar um açougue na Rua 12 de Outubro, na Vila Santana, dando origem a Casa de Carnes Bandeirantes. Por volta de 1975, a família fechou as portas do comércio no antigo endereço e transferiu a Casa de Carnes para o local onde até hoje está instalada: a Avenida dos Esportes. Ao lado de sua esposa, dona Norma Levreiro, senhor Carlos – hoje aos 82 anos – lembra com saudade da antiga Valinhos. “Quando meu pai comprou o açougue eu tinha uns 19 anos e já comecei a trabalhar com ele. A cidade é muito boa. Nós amamos viver aqui. Mas tenho saudade de antigamente sim. As pessoas acho que eram mais honestas, mais unidas. Era diferente”, afirma.

Antiga facha da Casa de Carnes Bandeirantes, na Avenida dos Esportes

Interior da Casa de Carnes Bandeirantes 

Ao lado do marido, Dona Norma ressalta que a Casa de Carnes existe há 61 anos e lembra com carinho do começo da trajetória. “Esse riozinho passava bem aqui na frente. Quando a gente veio pra cá, não tinha nada. Aí construíram a avenida, o posto de gasolina e assim foi se desenvolvendo. Era um tempo muito bom”, conta.

Sobre a crise enfrentada atualmente, seu Carlos ressalta que não lembra de ter vivido algo semelhante. “Algo forte assim, eu não me recordo de ter enfrentado. Mas o importante é não perder a fé. As crises são passageiras e a gente espera que essa seja, como outras também foram. Mas, é preciso ter consciência e seguir o que governo fala: usar as máscaras, respeitar as regras, só assim é que vamos vencer”.

Sobre o aniversário de Valinhos, ele reforça: “Temos que parabenizar o povo valinhense e a nossa cidade. Aqui tem um povo unido, pessoas de bem, um povo receptivo, forte. Nós amamos Valinhos”. 

Hoje, seu Carlos conta com a ajuda de seu filho, Carlos Henrique, na administração da Casa de Carnes.

Alguns anos depois, em 1968, um jovem sapateiro conhecido como Nelson Maziero dava início a outro importante comércio da cidade: a Nelson Calçados. Hoje, aos 79 anos, seu Nelson tem um mar de histórias para contar. O ofício de sapateiro ele começou a aprender aos 12 anos. “Foi o Toninho Ferrari que me ensinou tudo que eu sei. Eu consertava sapatos na garagem da família Romazini na Avenida Dom Nery. Aí também comecei a vender calçados e deu tão certo que, em 1968, abri a loja”.

O jovem sapateiro Nelson Maziero

Para seu Nelson, o segredo do bom negócio é manter a clientela. “Trabalhei durante sete anos na Gessy e abri uma loja do lado dela. Nós trabalhamos muito para conquistar a clientela. Nossos clientes daquela época ensinaram seus filhos a comprarem com a gente, aí passou pros netos também e hoje a família toda compra sapato na nossa loja. Então, a gente sobrevive até hoje com clientela de longa data”, conta.
Sobre o que mudou em Valinhos, o comerciante diz que, devido à idade, fica difícil acompanhar os avanços tecnológicos. “Na minha época era tudo na fichinha. A gente anotava o nome e as compras e o cliente pagava em três vezes”.

E o povo era mais honesto? “A cidade era menor, a gente se conhecia, conhecia todo mundo. Mas não pense que eu não levava cano naquela época, porque eu levava sim”, relembra aos risos.

Contrário ao fechamento do comércio devido a pandemia, seu Nelson ressalta que o prejuízo tem sido muito grande. “A gente valoriza a Saúde e sabe que é importante seguir as regras para proteger todo mundo. Mas, se essa situação durar mais 30 dias, muita pequena empresa não vai aguentar. 

Nelson Maziero com suas filhas e o neto

Hoje, além da filha Silvia, outros dois netos trabalham na loja junto com seu Nelson. A outra filha, Silvia Helena, também abriu uma loja de calçados, localizada no centro. 

Questionado sobre a relação com a cidade de Valinhos, ele ri e faz questão de ressaltar: “Se falar mal de Valinhos perto de mim vai arranjar encrenca. Eu sou pé de figo e amo demais essa cidade. Se pudesse nascer outra vez, queria nascer outra vez em Valinhos”.
 

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