ESPECIAL 120 ANOS Flávio de Carvalho por Jorge Amado

ESPECIAL 120 ANOS Flávio de Carvalho por Jorge Amado

Personalidade e representatividade do multiartista são citadas na obra Navegação de Cabotagem

Hoje, dia 10 de agosto, o multiartista Flávio de Carvalho comemoraria 120 anos. Nascido em 1899 no Rio de Janeiro, foi ele um dos grandes nomes da geração modernista brasileira, atuando como arquiteto, engenheiro, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo, músico e outros rótulos.

Como todos sabem, Flávio passou boa parte de sua vida em Valinhos, onde projetou e constuiu a famosa Casa de Flávio de Carvalho, ou sede da Fazenda Capuava, projetada em 1929 foi construída em 1938.
Tombada como patrimônio histórico pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) em 1982, a residência, com 650 m2 de área construída, e catorze cômodos, testemunha a irreverência do arquiteto na adoção de solução para os espaços.

O que poucos sabem, na verdade, é que a personalidade do multiartista é maravilhosamente narrada por um dos maiores - se não o maior - escritor brasileiro da história. Em sua obra "Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro se memórias que jamais escreverei", Jorge Amado fala sobre sua amizade com Flávio, onde o conheceu, cita as vindas a Fazenda Capuava, em Valinhos, e reforça detalhes do talento inquestionável de Flávio.
Hoje, em publicação inédita na cidade, a Folha de Valinhos traz com exclusividade os trechos da obra. Abaixo, conheça Flávio de Carvalho através dos olhos e palavras de Jorge Amado.

"Figuras decisivas na evolução da sociedade, portadoras do fermento revolucionário, não foram reconhecidas como tais, ao contrário, se viram tachadas de conservadoras de reacionárias. Assim sendo, rótulos os mais diversos e absurdos foram pespegados à personalidade revolucionária de Flávio de Carvalho, arquiteto, artista, inovador, agitador — às experiências, ao debate desencadeado: da rua ao palco, do projeto à construção, do salão de arte ao figurino provocador, deles tudo se disse sem se dizer o essencial. Em certas ocasiões o apuparam, noutras condenaram, jamais foi concedida à sua obra e à sua atuação importância que uma e outra mereciam e continuam a merecer. Se alguém renovou no campo da cultura brasileira, esse alguém chamou-se Flávio de Carvalho, gigante paulista na estatura e na valentia, no arrojo. Na coragem de pensar, de empreender, de realizar.

Eu o conheci quando fui a São Paulo pela primeira vez, em 1933, em companhia de Santa Rosa. Hospedamo-nos em casa de Tarsila do Amaral e Osório César, na ocasião marido e  mulher — haviam recém-chegado de Moscou, ir à URSS naquele então era aventura cercada de dificuldades, viagem de espantos — realizavam uma exposição de cartazes soviéticos, insólitos e românticos, no Clube de Artistas Modernos, organismo criado e dirigido por Flávio de Carvalho, na época o centro de cultura mais sério do Brasil, o que colocava a proposta mais avançada. Ali pronunciei conferência sobre as crianças nas plantações de cacau, autografei o livro ilustrado por Santa Rosa, assisti ao Bailado do Deus morto, de Flávio, que espetáculo!, logo proibido pela polícia política. A censura não dava tréguas ao CAM, trazia-o no cortado, vigiava-lhe as promoções, a montagem da peça de Oswald de Andrade, O homem e o cavalo, viera de ser vetada, as autoridades de olho, prontas para intervir e proibir: Flávio personificava a subversão em marcha, ameaçava a ordem e a moral.

Fiquei amigo de Flávio nessa ocasião e o fui enquanto ele viveu. Entre os artistas brasileiros foi ele sem dúvida o que mais ousou, estendeu a ousadia ao limite extremo, refiro-me por exemplo aos desenhos da mãe em coma, recordo o escândalo. Foi aquele que levou a pesquisa mais longe, não se limitava nem se deixava intimidar pela crítica, pelo desdém, pelo ataque dos revolucionários profissionais, os de carteirinha. Revolucionário foi ele, Flávio de Carvalho, o artista, o cidadão.

Desconheceram seu estudo sobre a psicologia das massas, relatada em Experiência n° 2, livro que está a exigir reedição urgente, publicam tanta besteira sobre psicanálise por que não trazem de volta às livrarias a pesquisa pioneira de Flávio, realizada no perigo das ruas e não na masturbação dos gabinetes? Riram dele nos jornais quando exibiu nas avenidas de São Paulo em novembro de 1956 o traje ideal para nosso clima: hoje parece-nos inconcebível como se escreveu tanta tolice sobre o desfile do saiote. Flávio estava avançado sobre o tempo.

A ação era-lhe tão necessária quanto a criação, todo ele ímpeto e generosidade, fundador do Clube dos Artistas Modernos, organizador do Salão de Maio. Colaborei com ele na preparação do Segundo Salão, em 1938 — vivi uns tempos em São Paulo à procura de trabalho, o Estado Novo fazia-me a vida difícil.

Geraldo Ferraz e eu fomos ao Rio em busca de quadros, Santa Rosa nos ajudou, Geraldo inventara o Club dos Mulatos Gordos assumira a Presidência, nomeara Santa Rosa o primeiro vice, o segundo era Gobbis*. Inventei os títulos dos quadros que Flávio pintara para o salão, me fez presente de um deles, A avó, mas de imediato o tomou de empréstimo, nunca mais o devolveu.

O atelier de Flávio ficava em edifício situado na esquina de Barão de Itapetininga com a Praça da República, ademais de atelier, era sala de reunião, lar, campo de batalha sexual — sobravam as candidatas, artistas e simpatizantes, tantas, inesquecíveis, Flávio as devorava, não escapava uma. De uma quero citar o nome, negra de beleza peregrina, foi esposa de pintor surrealista, alemão negreiro. De natureza dadivosa, divertia-se polígama, que corpo, Senhor meu Deus, possuo retrato seu pintado por Rebolo, mas só lhe mostra o rosto, o demais nada ficava a dever. Não, não vou citar-lhe o nome, para quê?, mais do que o nome vale a lembrança, a recordação. No mesmo andar do edifício morava Quirino da Silva**, pintou meu retrato, um senhor retratista.

Meu retrato Flávio o pintou em 1945, o meu, o de Guillén, o de Neruda. Pablo posou na Fazenda de Valinhos, em matéria de artes plásticas era um tanto acadêmico, ao ver o quadro pronto, comentou: não é um retrato, é uma natureza-morta. Arquiteto de projetos discutidos no Brasil e no estrangeiro, Flávio construíra as primeiras casas modernas de São Paulo, no Pacaembu, inventara a casa da Fazenda Capuava*, maravilha, a imensa porta de entrada. Com o mesmo entusiasmo se entregava à arte e às tarefas de fazendeiro, às colheitas de figos, à venda de leite na capital, forneci-lhe o nome para a empresa leiteira, José e sua boa vaca. Reunia amigos em Capuava, hospedagem farta e alegre, serões de música e bate-papo. Convidado, carregando o violão e a maleta, Dorival Caymmi desembarcou do carro, entrou na calçada que levava à porta do paraíso, deparou com a pianista Mercês da Silva Telles, alta, torneada, beleza grega, nua na piscina, doirando ao sol o corpo de estátua, Dorival largou mala e violão, exclamou: está pra mim!, começou a executar o passo do siri-boceta.

A experiência número dois, a massa ofendida, em desvario, a procissão de Corpus Christi desatinada atrás do homem de chapéu na cabeça desafiando a lei da seita, a número três foi o desfile do New Look no Viaduto do Chá. Nunca se soube qual a experiência número um, será que J. Toledo, seu confidente, seu testamenteiro, no livro monumental que está preparando sobre Flávio vai nos revelar o segredo? Somente ele sabe o código que permite abrir o cofre.

Antes que eu houvesse aparecido no campo da liça para travar o combate decisivo e conquistar a praça inexpugnável, Flávio cantou Zélia em plena rua, ela se dirigia à Light para pagar a luz, ele atrás no galanteio. Por um lado honesta, por outro jovem, Zélia o desdenhou, não lhe correspondeu aos acenos, às palavras doces, achava-o velho e feio e, sendo comunista, definia-o burguês liberaloide, rico e maluco, enfim, um reacionário. Ainda bem, em certas horas a ideologia tem valor e vez".

"Pablo viajara ao Brasil para a cerimônia de inauguração em São Paulo do monumento em memória de Garcia Lorca. Obra de Flávio de Carvalho, menos de uma semana após a solenidade o monumento foi destruído pelos esbirros da ditadura militar, as forças armadas não estimam os poetas".

 

Fonte: "Navegação de Cabotagem", autor - Jorge Amado. Páginas 142, 202 e 203

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