Opnião

O desafio de conviver com 120 mil veículos

O levantamento da Folha, com base nosdados da ABVE, mostra que a frota de veículos eletrificados em Valinhos cresceu impressionantes 52% apenas no primeiro trimestre deste ano

Em fevereiro deste ano, a Folha de Valinhos publicou um levantamento estatístico baseado nos dados de 2025. Na ocasião, projetamos que, em um intervalo de apenas dois ou três meses, a frota municipal romperia a barreira histórica das 120 mil unidades. O prognóstico, infelizmente para a fluidez do nosso trânsito, confirmou-se com precisão matemática. Dados oficiais da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) revelam que Valinhos encerrou o mês de março com 120.346 veículos emplacados.

O número é emblemático e traz consigo uma realidade incontestável: a cidade incorpora, em média, 8,5 novos veículos por dia. É como se, a cada 24 horas, uma pequena frota ganhasse as ruas, disputando o já saturado espaço asfáltico do nosso sistema viário. Se considerarmos que esse contingente se soma ao “fluxo flutuante” — os milhares de motoristas que cruzam o território valinhense vindos das rodovias Dom Pedro I, Anhanguera e Magalhães Teixeira —, o cenário de saturação deixa de ser uma ameaça futura para se tornar um problema crítico do presente.

Diante desse gigantismo, o primeiro chamado deve ser à consciência individual. O trânsito de Valinhos está, reconhecidamente, estressando a população. Os congestionamentos em horários de pico nas principais avenidas já não são exceção, mas a regra. Nesse contexto, a direção defensiva, a calma e o respeito mútuo deixam de ser apenas normas de etiqueta no trânsito e passam a ser atributos essenciais de sobrevivência e saúde mental. A pressa de um condutor não pode sobrepujar a segurança do outro. Precisamos resgatar a prudência, compreendendo que o aumento da frota exige de cada um de nós uma dose extra de paciência.

Contudo, a responsabilidade não pode recair apenas sobre os ombros — ou volantes — dos cidadãos. O Poder Público precisa encarar os números com profundidade estratégica. Se a frota cresce a um ritmo de 250 novos registros por mês, o sistema viário precisa acompanhar esse desenvolvimento com a mesma agilidade. Não se trata apenas de recapeamento, mas de um planejamento de mobilidade urbana que contemple rotas alternativas, sinalização inteligente e o fortalecimento do transporte coletivo. O repasse da cota-parte do IPVA para Valinhos superou os R$ 52 milhões apenas no primeiro trimestre de 2026. Há recurso; é necessário que ele se reverta em fluidez e segurança para quem paga a conta.

No meio desse cenário complexo, um dado trazido com exclusividade por este semanário acende uma luz de otimismo, ainda que tímida: a ascensão da eletromobilidade. O levantamento da Folha, com base nos dados da ABVE, mostra que a frota de veículos eletrificados em Valinhos cresceu impressionantes 52% apenas no primeiro trimestre deste ano. Já somos a terceira cidade na RMC em volume de carros elétricos e híbridos, com 1.746 unidades circulando.

Essa mudança de comportamento do consumidor é bem-vinda. Os veículos elétricos trazem benefícios diretos ao meio ambiente, reduzindo a emissão de poluentes e o ruído urbano — um alívio necessário para uma cidade que lança mensalmente cerca de 13,8 mil toneladas de CO2 na atmosfera. A queda nos preços e o aumento da autonomia dos modelos sugerem que essa tendência é irreversível. É um passo importante para a sustentabilidade, mas que também exige infraestrutura, como pontos de recarga públicos e incentivos para quem opta por tecnologias limpas.

Em suma, Valinhos vive um paradoxo de crescimento. A pujança econômica refletida nos 120 mil veículos é a mesma que desafia a qualidade de vida do morador. Para que a cidade não pare, é preciso que o asfalto receba investimentos à altura da arrecadação e que, dentro de cada veículo, o motorista pratique a civilidade. O trânsito é um espaço coletivo; que ele não seja um campo de batalha, mas um caminho de convivência.

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