Alternativa
A OMEV e o legado de união das igrejas em Valinhos
RAIO X
NOME; Francisco Maia Nicolau
IDADE: 75 anos
FAMÍLIA: Alcebíades Nicolau e Iraci Maia dos Santos
FORMAÇÃO: Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Urbana, Mestre em Antropologia Cultural e Etnoteologia, Professor em Historia do Cristianismo.
ATUAÇÃO: Pastor há mais de quatro décadas, conferencista nacional e Internacional, mentor de pastores, lidero grupos de Estudos sobre Israel, já subi 31 vezes a Terra Santa em viagens de estudos e capacitação pessoal.
Pastor fundador da Igreja Batista das Nações.
Em 1991, quando o cenário religioso de Valinhos ainda era marcado pelo isolamento das denominações e por uma presença evangélica discreta, um grupo de líderes decidiu romper barreiras em busca de comunhão. À frente desse movimento estava o Pastor Nicolau, escolhido como o primeiro presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos de Valinhos (OMEV). Nesta entrevista exclusiva à Folha de Valinhos, o pioneiro revisita os 35 anos de trajetória da instituição, desde os desafios culturais do início até marcos históricos de impacto social, como a mobilização em prol da Santa Casa
FOLHA DE VALINHOS – Pastor Nicolau, o senhor foi o primeiro presidente da OMEV em 1991. Olhando para trás, qual era o principal ‘clamor” ou necessidade dos pastores daquela época que fez com que figuras como Paulo Bandina e Clayton Machado provocassem a união da Classe?
PASTOR NICOLAU Naquele período, quando ainda éramos poucos pastores na cidade, o principal clamor era por comunhão e unidade. Havia uma necessidade real de estarmos mais próximos, compartilhando desafios, alegrias e responsabilidades do ministério. Também sentíamos falta de apoio espiritual mútuo, especialmente na oração e de um senso de proteção e encorajamento entre aqueles que tinham o mesmo chamado. Foi esse contexto que levou líderes como Paulo Bandina e Clayton Machado a promoverem a união dos pastores, estabelecendo uma base de relacionamento e cooperação que marcou a história da igreja em Valinhos.
FV – Na assembleia de fundação, o senhor foi o escolhido para liderar. Naquele momento, os evangélicos ainda buscavam “encontrar o seu lugar” na comunidade valinhense. Qual era o maior preconceito ou barreira que a igreja evangélica enfrentava há 35 anos?
PASTOR NICOLAU Naquele período, havia poucas igrejas evangélicas na cidade, o que tornava o trabalho de evangelização mais desafiador. A principal barreira era, de certa forma, cultural: estávamos chegando a um contexto já estabelecido por outras tradições religiosas há muito mais tempo.
Isso gerava uma certa resistência e desconfiança, o que é compreensível em um primeiro momento. No entanto, não me recordo de uma oposição aberta ou confrontos diretos. Era mais uma questão de espaço, aceitação e reconhecimento dentro da comunidade. Com o tempo, através do testemunho, do serviço e da convivência, a igreja evangélica foi conquistando seu lugar na cidade.
FV – O senhor mencionou no último sábado que Deus é um “Deus geracional”. Como o senhor avalia a passagem de bastão das lideranças pioneiras de 1991 para a nova geração de pastores que hoje conduz a OMEV? O legado está seguro?
PASTOR NICOLAU Essa transição não aconteceu de forma pontual ou planejada para um momento específico, mas foi um processo natural. Há anos já se falava, dentro da OMEV, sobre a importância de envolver e preparar as novas gerações para a liderança futura. Há entre nós a convicção de que esse movimento está alinhado com o propósito de Deus. A própria Bíblia revela um padrão geracional, em que o trabalho é contínuo e complementar entre as gerações. Não há ruptura, mas desenvolvimento.
Os mais experientes continuam contribuindo com sabedoria e orientação, enquanto os mais jovens assumem responsabilidades com respeito, disposição para aprender e compromisso com a missão. Por isso, creio que o legado está seguro não por causa de estruturas, mas pela continuidade de princípios, valores e do chamado que permanece ativo de geração em geração.
FV – A OMEV não nasceu apenas para o culto, mas para a ação. A campanha “1+1” em prol da Santa Casa foi um marco histórico. Como foi para a OMEV, naquele momento, assumir a responsabilidade diante de um hospital em crise?
PASTOR NICOLAU Foi um momento muito especial para a OMEV, ao mesmo tempo desafiador e inspirador. A proposta era simples, mas a responsabilidade era grande, diante da realidade de um hospital em crise. No início, havia uma certa incerteza quanto ao alcance da campanha, mas o engajamento das igrejas e o comprometimento dos envolvidos fizeram toda a diferença. O mais marcante foi ver a população de Valinhos abraçando a iniciativa. Isso demonstrou que, quando há unidade e propósito, é possível mobilizar a cidade em torno de uma causa maior. Ao final, a campanha se tornou um grande sucesso e um marco na atuação social da OMEV.
FV – Historicamente, a Santa Casa teve dois pastores como provedores (Hiran e Anips). Como o senhor vê essa inserção direta de líderes religiosos na gestão de instituições civis? É um modelo que deveria ser mais explorado ou oferece riscos à missão espiritual?
PASTOR NICOLAU Na minha avaliação, o trabalho realizado pelos pastores Hiran e Anips foi extremamente positivo. Eles contribuíram de forma relevante para a gestão da instituição e também no cuidado espiritual, por meio da capelania, atendendo aqueles que desejavam esse apoio. Para nós, foi gratificante ver líderes da nossa ordem servindo diretamente a comunidade e representando bem os valores que defendemos. Isso, inclusive, abriu portas para uma participação ainda maior das igrejas em ações sociais. ão vejo esse tipo de atuação como um risco à missão espiritual. Pelo contrário, entendo que a missão cristã é integral.
O ser humano precisa de cuidado completo: físico, emocional e espiritual. Quando há maturidade e discernimento, é possível exercer esse papel com equilíbrio e responsabilidade, sem comprometer os princípios da fé.
FV – Durante a pandemia, vimos uma união rara entre a OMEV e a Igreja Católica para ajudar moradores de rua. Para quem viveu o início da OMEV, quando as divisões denominacionais eram mais acentuadas, como o senhor enxerga essa maturidade do ecumenismo prático em Valinhos?
PASTOR NICOLAUA pandemia foi um momento sem precedentes, que desafiou toda a sociedade e exigiu respostas rápidas e práticas. Diante de uma necessidade tão urgente, muitas barreiras foram naturalmente superadas.
O que vimos em Valinhos foi uma união voltada para o essencial: cuidar das pessoas, especialmente dos mais vulneráveis. Esse movimento refletiu, na prática, valores centrais do evangelho, como o serviço, a compaixão e o amor ao próximo.
Para quem acompanhou o início da OMEV, quando havia mais distanciamento entre denominações, esse momento representa uma maturidade importante. Mostra que, diante de causas maiores, é possível cooperar sem renunciar às convicções.
Na minha avaliação, foi um tempo de crescimento não apenas institucional, mas espiritual para toda a cidade.
FV – O senhor elogiou publicamente a postura do prefeito Franklin Duarte, que orou pelas lideranças durante o evento. Como o senhor, que acompanhou tantos ciclos políticos em Valinhos desde 1991, avalia esse gesto vindo de um prefeito jovem e de uma geração de políticos? O senhor acredita que este tipo de abertura demonstra um novo tempo de respeito e reconhecimento ao legado das igrejas na cidade?
PASTOR NICOLAU Creio que sim. Fiquei muito feliz e até emocionado com a atitude do prefeito. Ao longo desses 35 anos, tanto as lideranças políticas quanto as espirituais sempre buscaram fazer o melhor em seu tempo, com acertos e erros que também trouxeram aprendizado.
O gesto do prefeito Franklin Duarte foi simbólico e oportuno. Em um contexto de mudanças rápidas, atitudes como essa sinalizam uma nova postura, marcada por respeito e abertura ao diálogo com a fé. Não se trata de estabelecer um padrão, mas de reconhecer a relevância daquele momento. Foi uma ação que marcou e pode, sim, indicar um novo tempo de reconhecimento ao papel das igrejas na cidade. Também evidencia que as igrejas vivem um momento de maior maturidade, atuando em diferentes áreas da sociedade com responsabilidade, sem abrir mão de seus princípios.
FV – O senhor atravessou décadas aconselhando famílias e liderando comunidades. Na sua visão, qual é o maior desafio para que a mensagem ensinada dentro das igreja se transforme em atitudes práticas de amor e integridade no dia a dia, lá fora, no trabalho e na convivência com o próximo?
PASTOR NICOLAU O maior desafio é transformar a fé em prática diária. Um dos princípios que mais enfatizo é que “a fé sem obras é morta”. Por isso, trabalho muito com uma base simples: devoção, humildade e serviço. Quando há devoção e humildade sem serviço, corre-se o risco de cair em uma religiosidade vazia. Por outro lado, serviço sem devoção e humildade se torna apenas ativismo. O equilíbrio entre esses elementos é essencial para uma fé autêntica.
A vida cristã nos ensina que o outro deve ser prioridade. Isso está presente nos ensinamentos de Jesus, especialmente em exemplos como o Bom Samaritano e o lava-pés, que mostram que a fé verdadeira se expressa no cuidado, no amor e na atitude prática no dia a dia.
FV – Em 1991, a Marcha para Jesus ou o monumento “Jesus Cristo é o Senhor de Valinhos” eram sonhos incipientes. Ver esses marcos consolidados hoje traz um sentimento de missão cumprida ou o senhor acredita que a igreja se tornou “confortável” demais com o status quo?
PASTOR NICOLAU A história da Igreja nos mostra que, ao longo dos séculos, períodos de crescimento e conquistas muitas vezes foram seguidos por momentos de acomodação espiritual. Por isso, a vigilância é sempre necessária. Sem dúvida, há um sentimento de gratidão pelas conquistas alcançadas. Quando olhamos para o início e vemos o que foi construído até aqui, reconhecemos avanços importantes. No entanto, não se trata de missão cumprida. A igreja continua tendo um papel ativo e desafios relevantes pela frente.
Em Valinhos, vejo uma igreja em crescimento, com entusiasmo e consciência de que ainda há muito a ser feito, mantendo o compromisso com sua missão espiritual e social.
FV – O senhor fala com muita leveza sobre a história da OMEV em Valinhos. Qual o conselho mais honesto e direto que o senhor dá aos jovens pastores que estão assumindo congregações em um mundo polarizado e digital, onde a imagem parece valer mais que a mensagem?
PASTOR NICOLAU Meu conselho é que sejam humildes e reconheçam que ninguém constrói nada sozinho, sempre há uma herança recebida de outros que vieram antes.
Também é fundamental evitar o isolamento. A própria Bíblia adverte que quem se isola tende a agir de forma egoísta e sem sabedoria. A igreja é um corpo, e precisamos uns dos outros para cumprir a missão.
Em um mundo cada vez mais voltado à imagem, é essencial não perder a essência. Por isso, destaco princípios fundamentais: obediência, responsabilidade, compromisso e ação. São esses valores que sustentam um ministério sólido e fiel, independentemente do contexto cultural ou das pressões do tempo presente.
FV – Se o senhor pudesse resumir os 35 anos da OMEV em uma única lição que a cidade de Valinhos precisa aprender com a história dos pastores unidos, qual seria a lição?
PASTOR NICOLAU A principal lição é a perseverança. Não desistir nos momentos difíceis, mas seguir firmes, confiando que a obra pertence a Deus.
Ao longo desses 35 anos, ficou claro que, quando há unidade, fé e compromisso, Deus honra o trabalho realizado. Essa confiança foi o que sustentou a caminhada até aqui e continua sendo fundamental para o futuro.
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