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Censura e violência nas escolas: Pesquisa revela que 9 em cada 10 professores sofrem perseguição

Créditos: iStock / Jacob Wackerhausen

Levantamento do ONVE/UFF mostra que essas violências partiram majoritariamente de integrantes da própria comunidade educativa

Situações de perseguição e censura fazem parte da rotina de professores da educação básica e do ensino superior em todo o país: 93% dos professores brasileiros afirmam já ter sofrido ou presenciado ocorrências do tipo no ambiente educacional.

A informação faz parte da pesquisa inédita “A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática”, realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC).

Maioria dos professores já foi vítima direta de violência

O estudo contou com a participação de 3.012 profissionais da educação, das redes pública e privada, em todas as regiões do país, e mostrou que a violência não ocorre de forma isolada.

Do total, 59% relataram ter passado diretamente por situações de censura, 19% informaram que o episódio ocorreu com alguém próximo e 15% disseram ter ouvido falar sobre casos semelhantes em seu ambiente de trabalho.

Entre os diretamente censurados, a pesquisa identificou diferentes formas de violência no cotidiano profissional, como tentativas de intimidação (58%), questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho (41%) e proibições explícitas de conteúdos em sala de aula (35%).

Também surgiram relatos de consequências mais graves, como desligamentos, afastamentos temporários, transferências compulsórias e perda de função, além de ofensas verbais e violência física.

Conteúdos censurados e recorrência dos episódios

O levantamento identificou casos em que educadores foram proibidos de abordar temas como violência sexual, inclusive quando o objetivo era alertar estudantes sobre situações que ocorrem dentro de casa.

A proporção de professores que passaram diretamente por esse tipo de violência variou entre 36% e 49%, e a maioria relatou que os episódios ocorreram quatro vezes ou mais.

Segundo a pesquisa, os principais temas que motivaram questionamentos à prática docente foram política (73%), sexualidade (53%), religião (48%) e negacionismo científico (41%).

O estudo também analisou quando essas violências ocorreram: houve um crescimento a partir de 2010, com picos em 2016, 2018 e 2022.

Violência parte da própria comunidade escolar

Outro dado relevante é que os agentes da violência costumam fazer parte da própria comunidade educativa. Os educadores apontaram como responsáveis:

  • profissionais da área pedagógica (57%);

  • familiares de estudantes (44%);

  • estudantes (34%);

  • outros professores (27%);

  • profissionais da administração (26%);

  • funcionários da instituição (24%);

  • secretarias de educação ou reitorias (21%).

Esse contexto gera impactos profundos: 33% dos docentes consideraram a violência extremamente impactante na vida profissional e pessoal, enquanto quase 40% classificaram o impacto como bastante significativo.

Impactos no trabalho docente

O desconforto com o espaço de trabalho apareceu entre os três principais impactos, citado por mais da metade dos respondentes e levando 20% dos educadores a mudarem de local de trabalho por iniciativa própria. Além disso, 45% relataram a sensação de monitoramento permanente, o que leva à autocensura em sala de aula.

Embora investimentos em tecnologia e infraestrutura, como acesso a equipamentos como notebook e melhorias como salas de aula equipadas e laboratórios, sejam fundamentais para o trabalho docente, eles não resolvem o problema sozinhos.

Assim, o próprio relatório completo do ONVE indica a necessidade de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores, atualmente em elaboração no âmbito do MEC, como passo essencial para garantir respeito, liberdade pedagógica e uma educação verdadeiramente democrática.

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