Alternativa
40 anos de uma geração sem filtro

SOS Juventude: Em 1985, Valinhos protagonizou um movimento que acendeu a chama do debate e do protagonismo juvenil, marcando a história da cidade em um Brasil que ensaiava a redemocratização
Novembro de 1985. Há exatos 40 anos, o mundo era um lugar radicalmente diferente: o Brasil mal saía da casca da Ditadura Militar, engatinhando nos primeiros passos da redemocratização. A Guerra Fria ainda moldava a geopolítica global, e na saúde pública, o grande espectro era a AIDS, uma doença recém-descoberta e envolta em mistério e pânico. Em casa, a comunicação era lenta: não havia Internet, nem redes sociais. A informação e o debate passavam pelo rádio, pelo jornal e, principalmente, pelo encontro presencial.
Foi neste cenário de transição, no auge do Ano Internacional da Juventude, que a cidade de Valinhos viu florescer um dos seus movimentos juvenis mais marcantes: o Projeto SOS Juventude.
Idealizado por André Luiz dos Reis, hoje Secretário do Verde e da Agricultura, e levado a cabo por um grupo de jovens visionários que acreditavam no poder da mobilização, o SOS Juventude transcendeu a mera celebração. Ele se tornou um espaço de efervescência cultural, de debate franco e, sobretudo, de protagonismo juvenil.
A Força da organização e do debate
O Projeto SOS Juventude foi organizado por uma Comissão oficial nomeada pelo então prefeito Vitório Antoniazzi, que liderou o processo com a energia da época: Sidnei Barbosa de Oliveira (presidente), Regina C. de Lara Campos, Maria José Batista, Celso Gouveia, Waldir Calsavara, Maria Emylier Zanotello, Fábio Rezende Moreira, André Luiz dos Reis, e, posteriormente, Luciana Schiavinato.
O evento, que durou dois finais de semana, a abertura aconteceu na Praça Washington Luiz no dia 3 de novembro, com o lançamento da Gincana e as primeiras tarefas e o evento principal no Parque Municipal de Feiras e Exposições “Monsenhor Bruno Nardini”, nos dias 9 e 10 de novembro.
Além disso, a organização do projeto foi levada a cabo com a participação de jovens ligados a movimentos juvenis na cidade, como o Pré-Joca, grupo de Jovens do Castelo, Leo Clube de Castores, ligado ao Lions Club, e jovens ligados a Pastoral do Crisma da Paróquia de São Sebastião, entre outros.
A programação, distribuída entre a Praça Washington Luiz e o Parque Municipal, era um reflexo direto das preocupações daquele tempo. O SOS Juventude não se limitou ao lazer, com a realização de uma das maiores gincanas da cidade, shows com grupos de rock como Censura Livre e Página Um, Trio Elétrico, feira de trocas e o Varal de Poesias.

As equipes participantes da Gincana SOS Juventude – Os Largados, Equipe Nômades, Anjos do Inferno, Equipe Ciro
O cerne do movimento estava nas palestras de conscientização, abordando temas de relevância crítica:
• Saúde e Sexualidade:
O fantasma da AIDS era enfrentado de frente, com a palestra e debate sobre a doença, ministrado pelo Dr. Antonio Bueno Conti. Tópicos como “Juventude e Sexualidade” (com a Dra. Maria da Graça Câmara Baroni) e aborto também integravam a agenda.
• Problemas Sociais:
O debate sobre “tóxicos” era central, com palestras a cargo do Dr. Tabajara Dias de Andrade e a exibição de filmes como Eu Cristiane F. Drogada e Restituída.
•Cultura e Ciência:
De astrologia, com o astrônomo Dr. Mário Magalhães falando sobre o Cometa Halley, à arte, o evento buscava uma formação integral.
“Nas palestras e nos filmes, os jovens sentiram a problemática e debateram acirradamente cada tema. Nas demais atividades, mostraram seu poder de participação e força, além de muita criatividade, haja vista, no show das equipes da gincana,” registrava uma das edições da Folha de Valinhos, que cobriu todo o evento na época.

O encerramento do Projeto coroou a seriedade do evento com um momento histórico: a primeira apresentação da Orquestra Sinfônica de Campinas em Valinhos, sob a regência do então maestro Benito Juarez. A performance, que foi da música erudita à popular, terminou em frevo, fazendo os jovens “caírem na dança,” num símbolo da união entre cultura e alegria.
40 Anos depois
A geração que protagonizou o SOS Juventude hoje está na casa dos 55 anos. Muitos são pais e até avós que viram a juventude de seus filhos e netos crescer sob o domínio da tecnologia, das redes sociais e do excesso de informação.
Há 40 anos, a Geração SOS Juventude precisou se mobilizar, organizar e ir à luta no mundo real para ter voz e debater seus anseios. Em um tempo sem “likes” ou engajamento digital, o sucesso do movimento — que pretendia “continuar reunindo a juventude em outras atividades” — foi medido pela capacidade de mobilização presencial e pelo impacto direto nas discussões sociais.
O SOS Juventude permanece na memória valinhense como um dos grandes momentos de afirmação do protagonismo juvenil, provando que, mesmo sem a velocidade da internet, a força da juventude e o poder do encontro são a verdadeira chave para a transformação.


