Valinhos
Yoshida defende projetos e cobra prioridade para direitos humanos

Com uma trajetória que une o Direito, a História e a docência, o vereador Marcelo Yoshida (PT) detalhou sua visão sobre o trabalho legislativo em entrevista à Folha de Valinhos no projeto “Fala Vereador”. Yoshida explica que sua formação e a experiência como professor e fundador do Cursinho Popular Contexto o mantêm próximo das necessidades da população, moldando uma atuação baseada na representatividade e nos limites legais.
O vereador, em seu segundo mandato, abordou a urgência de políticas ambientais, destacando o conceito de “Cidade-esponja” e cobrando o envolvimento firme do Executivo na destinação orçamentária. Questionado sobre pautas de inclusão, Yoshida lamentou a falta de avanço em políticas para a população LGBTQIA+ e apontou a violência contra mulheres e crianças como principal violação a ser combatida na cidade, sugerindo o fortalecimento do Conselho Tutelar.
FOLHA DE VALINHOS Considerando sua formação em Direito, História, e sua atuação como professor, como essas diferentes áreas do conhecimento e sua experiência no Cursinho Popular Contexto influenciam e moldam sua abordagem e prioridades no trabalho legislativo em Valinhos?
MARCELO YOSHIDA A minha formação em direito me ajuda a entender os limites e as possibilidades de atuação no legislativo. Tive experiências de estágio em alguns órgãos públicos que me permitiram entender melhor as necessidades da população.
Como professor de história da rede municipal de Valinhos e como fundador do Cursinho Popular Contexto, tenho contato diário com a população fazendo com que a minha atuação seja muito próxima das pessoas com as quais convivo.
FV O senhor propôs projetos importantes sobre conservação ambiental, gestão urbana sustentável e o conceito de “Cidade-esponja”. Diante desse desafio, qual o maior desafio prático para tirar essas ideias do papel e modernizar a infraestrutura de drenagem, e como o Executivo deve ser envolvido para garantir o sucesso dessas políticas?
MY Existem grandes desafios, como a regulamentação de projetos já aprovados e a destinação de orçamento público para as necessidades ambientais da cidade. O Executivo tem papel central na concretização dessas políticas, pois a destinação orçamentária é feita pela Prefeitura. Além dos gestores, a população também precisa reconhecer a importância dessas ações. Diante dos impactos frequentes das enchentes, é essencial que todos compreendam que um meio ambiente equilibrado é direito de todos e garante dignidade e sobrevivência, especialmente das futuras gerações. Devemos fazer a nossa parte em Valinhos.
FV Especificamente sobre o projeto “Cidade-esponja”: entre as ações propostas (pavimentos permeáveis, teto-verde, jardins de chuva), qual o senhor considera que teria o impacto mais rápido e eficaz na redução de enchentes em pontos críticos da cidade?
MY É importante destacar que as políticas de Cidade-esponja só funcionam se aplicadas em conjunto; adotar apenas uma proposta é insuficiente para gerar impacto relevante. Toda política pública é mais efetiva quando envolve diversos setores, e com o meio ambiente não é diferente. Como propor pavimentos permeáveis sem diálogo com as secretarias de Obras, Serviços e Mobilidade? É essencial que haja integração entre as pastas e condução política firme, priorizando o meio ambiente — caso contrário, vira ação apenas para “sair na foto”. Um exemplo de oportunidade perdida é o estacionamento ao lado da Festa do Figo, que poderia ter recebido pavimento permeável sem prejuízo ao objetivo da Prefeitura, especialmente porque o cruzamento entre a Av. Joaquim Alves Corrêa e a R. Raimundo Bissoto é um ponto recorrente de alagamentos.
FV O senhor participou da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB de Valinhos e atua em defesa dos Direitos Humanos. Qual é o maior avanço que a cidade de Valinhos alcançou recentemente em termos de políticas de diversidade e inclusão, e quais são os próximos passos legislativos que o senhor pretende dar para proteger e garantir os direitos da população LGBTQIA+ e de outras minorias na cidade?
MY Infelizmente, a cidade não tem avançado em políticas de diversidade e inclusão para a população LGBTQIA+, e as iniciativas existentes ainda são incipientes. O primeiro passo seria implementar uma política de formação contínua para todos os servidores, para que compreendam melhor a temática e se sensibilizem, garantindo um atendimento mais adequado. Assegurar o acesso humanizado da população LGBTQIA+ ao serviço público significa garantir saúde, educação e assistência social — pilares da cidadania.
FV O senhor presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara por quatro anos e atua na defesa dos Direitos Humanos. Qual é a principal violação de direitos que a Câmara Municipal precisa enfrentar urgentemente em Valinhos?
MY Valinhos tem registrado aumento de notificações de violência contra a mulher e crimes contra crianças e adolescentes. A Câmara já enfrenta esse tema há anos, mas é preciso que o Executivo o priorize. Fortalecer o Conselho Tutelar — incluindo a criação de uma segunda unidade, já permitida pelo porte da cidade — é um caminho.
Também é necessária uma casa de acolhimento para mulheres vítimas de violência, com apoio psicológico, social e jurídico. São medidas pontuais, que devem estar articuladas a outras políticas públicas de prevenção à violência e ao abuso.
FV O senhor está em seu segundo mandato e apresentou um volume expressivo de proposituras (65 projetos de lei, 701 requerimentos, etc.). Qual dessas proposições, já aprovadas ou em tramitação, o senhor considera o maior legado de seu primeiro mandato ou a maior prioridade para este novo mandato, e por quê?
MY Minha atuação como parlamentar trouxe a Valinhos uma política mais inclusiva e representativa. No primeiro mandato, destaque para a Lei Municipal nº 6.456/2023, que reconhece cultos e liturgias de religiões de matriz africana como patrimônios culturais imateriais. Mesmo sem professar fé, busco ampliar vozes historicamente excluídas do debate público. Outra iniciativa, apresentada anualmente, é o Projeto de Lei que institui o Dia Municipal de Combate à LGBTfobia (17 de maio), muitas vezes arquivado. Esses exemplos mostram o quanto Valinhos ainda precisa avançar na inclusão de grupos que construíram e vivem na cidade, pagando impostos e sofrendo violência cotidiana.
FV A moção de apoio contra a violência política de gênero é um tema relevante. Como a Câmara Municipal de Valinhos, por meio de legislação ou fiscalização, pode atuar de forma mais contundente para criar um ambiente político mais seguro e equânime para mulheres e grupos minoritários?
MY A violência política, seja de gênero ou contra grupos minorizados, reflete desigualdades sociais. Participar da política significa entrar em espaços tradicionalmente ocupados por homens cisgênero, brancos e de classe média-alta. Quando outros grupos acessam esses espaços, enfrentam assédio moral, sexual e até violência física. A diversidade na política deveria ser vista como positiva, trazendo novas ideias e soluções, além de evidenciar problemas antes invisíveis.
FV Sua trajetória é marcada pela descendência japonesa e a participação na Associação Nipo-Brasileira. De que forma a herança cultural de seus pais e avós, baseada em valores como disciplina e comunidade, se reflete em seu estilo de fazer política?
MY Como a maioria dos descendentes de imigrantes japoneses, a minha educação foi rígida e pautada no trabalho duro. Valores como disciplina, honestidade e honra são trabalhados desde muito cedo e são incorporados no nosso modo de vida. Esses são elementos que eu carrego dessa formação. Não há atalho para se ter um bom resultado. É através da disciplina, do trabalho duro e numa relação honesta com as pessoas que os frutos do trabalho aparecem.
FV O senhor foi reeleito pelo PT, um partido com forte presença na política nacional. Como o senhor avalia a relação entre a política municipal e a política estadual/federal, e de que forma essa articulação partidária pode beneficiar diretamente os cidadãos de Valinhos?
MY Não há outro caminho para uma política que beneficie a população que não passe pelo diálogo entre os representantes dos entes federativos. Os recursos e repasses do governo federal são essenciais para a manutenção e implementação de políticas em benefício da população. Hoje, no atual governo federal, há disposição e abertura para o diálogo e tenho certeza de que o prefeito tem tido portas abertas para tratar de assuntos importantes da nossa cidade.
FV Como vereador de oposição, qual a sua avaliação atual sobre a gestão do Prefeito Franklin? Como o senhor tem conseguido conciliar sua atuação fiscalizadora e de defesa das pautas do seu partido com a necessidade de diálogo e cooperação com o Executivo para garantir que projetos importantes para a população, como os de saúde humanizada e resiliência climática, sejam efetivamente implementados?
MY O governo municipal está prestes a completar 1 ano e, mesmo sendo oposição, é possível perceber o ímpeto em cumprir o que foi prometido na campanha. Por fazer parte de outro grupo político com visões ideológicas distintas, tenho discordâncias sobre a condução de algumas políticas, prioridades e metodologia. No entanto, com esforço e diálogo, é sempre possível encontrar caminhos e objetivos comuns pelo bem da população, buscando garantir os direitos básicos dos cidadãos e cidadãs de Valinhos.
FV Olhando para o futuro de Valinhos, qual o objetivo a longo prazo (além do mandato atual) que o senhor tem para a cidade? Qual é a “bandeira” que o Vereador Marcelo Yoshida espera deixar hasteada na história política de Valinhos?
MY A cidade de Valinhos precisa honrar a história das pessoas que a construíram, sem apagar e ignorar a existência de determinados grupos. Precisamos olhar para o nosso passado, entender e reconhecer um passado escravocrata, racista, misógino. Negar essa história é esconder o problema debaixo do tapete, significa não sermos honestos conosco. A partir desse reconhecimento, caminhar para a construção de uma sociedade que se direcione para a igualdade, sem preconceitos, sem racismo, sem machismo, sem LGBTfobia.


