Gustavo Bissoto Gumiero encontrou na Sociologia uma forma de compreender as situações da vida

Gustavo Bissoto Gumiero encontrou na Sociologia uma forma de compreender as situações da vida

Vanessa Placido 

RAIO-X

Nome completo: Gustavo Bissoto Gumiero
Idade: 36 anos
Onde nasceu: Valinhos -SP
Formação: Graduação em Educação Física (Unicamp), Especialização em Teologia Bíblica, MBA em Gestão Empresarial (FACAMP), Mestrado em Sociologia (Unicamp) e Doutorando em Sociologia (Unicamp)

“Eu quero escrever muitos livros, eu quero deixar uma obra, então é isso que mantém a chama acesa dentro de mim”

Valinhense perdeu os pais em 70 dias e encontrou na Sociologia uma forma de compreender as situações da vida 

Gustavo Gumiero, tem 36 anos e é filho único em entrevista a Folha de Valinhos, contou como superou a morte de seus pais tão repentina e em curto espaço de tempo. Além disso Gumiero viveu grandes mudanças afim de encontra o verdadeiro sentido para sua vida.
Começou sua carreira como atleta profissional, mas mudou seu objetivo e começou a trabalhar como publicitário e estudar Teologia, após ler uma entrevista do sociólogo Zygmunt Bauman, se apaixonou por sociologia e até hoje se especializa no assunto. O sociólogo destacou que até o final de sua vida quer escrever cerca de 20 obras.
Toda essa trajetória e mudanças fizeram Gustavo, superar as maiores perdas de sua vida.

Folha de Valinhos: Conte-nos sobre sua trajetória profissional?

Gustavo Gumiero: Fui atleta de futebol até 2007, joguei em alguns times aqui no Brasil e morei na Itália por três anos e também joguei uma temporada lá, parei aos 26 anos e voltei para o Brasil e em 2008 comecei a trabalhar na área corporativa, hoje costumo dizer que estou publicitário, por que eu não sou, mas estou, por que minha paixão é a sociologia. 

Como foi a sua aproximação com o meio acadêmico?

Depois que eu parei de jogar futebol eu quis estudar Teologia, então eu procurei alguns cursos e fiz esse curso teológico por três anos, em um determinado momento da minha vida, eu já tendo lido os grandes teólogos do antigo testamento, eu estava querendo desenvolver um estudo sobre a sociedade atual e a teologia já não me conseguia responder, foi aí que lendo uma entrevista do sociológico Zygmunt Bauman em 2012, efervesceu uma  faísca em minha vida com relação a sociologia, então faz seis anos que eu estudo, foi a entrevista que me abriu os olhos, e naquele momento eu disse “A partir de hoje eu quero a Sociologia para a minha vida”, isso desencadeou diversas transformações na minha vida, seja intelectual, seja de relacionamentos, seja sentimental e até mesmo espiritual, a partir disso eu me modifiquei muito e tenho me modificado todos os dias.

Gustavo, como foi perdeu seus pais, primeiro sua mãe Jacir Bissoto e depois seu pai, Silvio Gumiero?

Bom... Eu sou filho único, não tenho filhos e sou divorciado, então para mim mãe e pai são essenciais, eu sempre fui muito amado por eles. Meu pai sempre foi muito presente me acompanhava em tudo, eu não morava com meus pais, mas conversava de três à quatro vezes por dia com meu pai, já minha mãe sempre me amou muito e esse amor era recíproco.
Em maio do ano passado detectamos uma doença em minha mãe, em 10 dias ela foi para a U.T.I, e nessas circunstância eu poderia talvez não vê-la mais, poderia não ter dado  tempo de falara tchau para ela, só que aí conseguimos fazer uma operação em Campinas, que a trouxe a consciência, daí foram três meses difíceis, mas que eu pude cuidar dela e retribuir um pouco do carinho que ela me deu, então eu agradeço a vida por isso, por ter tido essa oportunidade desses três meses. Minha mãe veio a falecer em 20 de setembro 2017 e depois de 20 dias meu pai começou a passar mal, mas ele é muito forte então a gente não sabia o que era e ficou assim por uns quarenta dias, até que nós o levamos ao hospital e detectamos a mesma doença da minha mãe que era câncer no pâncreas com metástase já para o fígado. Meu pai ficou cinco dias no hospital, enquanto minha mãe ficou cincos meses.
Meus pais eram separados há 25 anos, os enterramos na mesma capela. Foram setenta dias de diferença, ou seja, 10 semanas exatas, então foram muitas coincidências, e todo mundo me fala sobre essa coincidência.
O que eu tenho a dizer a respeito dessa situação é que eu fui muito amado, então olho para traz e só tenho que agradecer a vida, mesmo tendo perdido os dois em 70 dias, vivi 36 anos com eles. Além disso algumas pessoas foram fundamentais na minha vida durante essa fase, destaco a minha prima Valéria Bissoto, que se tornou uma irmã para mim. Por todos esses motivos eu só tenho que agradecer mesmo.

Amor de pai e mãe ficou diferente entre a primeira infância, a juventude, e momento em que ele foram embora?
O do meu pai eu acho que foi sempre igual, era sempre o apoio, a presença, o suporte e o ensinamento. São fases diferentes, mas não saiu desses pilares né, apoio, conselho, presença, acho que esse tri pé dele em todo o momento da minha vida. Da minha mãe é amor em todos os momentos da vida.
O que você pode falar para as pessoas nessa questão de superação e mudanças?
A vida me moldou, eu morei sozinho nos Estados Unidos quando eu tinha 16 anos, depois morei na Itália por três anos, tive amigos que foram e voltaram por que tiveram a Síndrome do Pânico, só que o meu objetivo sempre estava a frente, então isso que me fazia forte e com o apoio lógico da família.  Então isso me moldou, ter sido goleiro te torna forte, de ter sido filho único e depois estudar filosofia e sociologia, isso te fortalece, então fui moldado pela vida.
Um amigo meu, fala “A vida não erra, você só tem que se adaptar com aquilo que ela propõe”, então a vida não errou, meu pai e minha mãe morreram e tenho que me adaptar, e mudar a chave. Dá para fazer alguma coisa? Não dá. Eles vão viver de novo? Não, não vão. Eu penso neles diariamente, as vezes sonhos, o que é normal.
A superação é ser forte tendo a capacidade de continuar com os seus objetivos, que a vida continua e isso é a lei natural da vida, morrer os pais e não os filhos.  E essa força eu busco através dos objetivos que eu tenho e de procurar realiza-los, eu quero escrever muitos livros, eu quero deixar uma obra, então isso que mantém a chama acesa dentro de mim.

Hoje, nesse ambiente acadêmico com a sociologia, o que ela te ajudou, após você viver esse duplo impacto e estar em pé, não ter deixado depressão te consumir, ou outras doenças ocasionais?
É bom fazer um adendo antes de responder, que logo quando eu parei de jogar futebol eu queria escrever e a Folha de Valinhos foi a que me deu a oportunidade, tanto que eu escrevo aqui faz 10 anos, desde 2008 com mais de 200 colunas, graças a Folha de Valinhos.
O ponto questionado é exatamente a minha obra, eu quero deixar a minha contribuição para a sociedade, eu recebo muito da vida e da sociedade e eu quero retribuir e é isso que me mantém vivo, que me mantém forte. O Foucault fala “Não é a morte que me preocupa, mas a interrupção da minha tarefa.”
Eu me vejo escrevendo uns 20 livros antes de morrer e escrevendo até o último dia da minha vida se eu puder.